segunda-feira, 18 de novembro de 2013

ARTE VISUAL e ANATOMIA



As relações do ser humano com a anatomia, fosse humana ou não, sempre foi uma questão presente na expressão artística desde seus primeiros momentos e definiu boa parte do percurso das imagens na Arte. Reproduzir a aparência das coisas foi, para a Arte Visual, um ponto de apoio importante para o processo de comunicação e informação que se consolidou na História da Arte até, praticamente, o Modernismo.


Em alguns momentos da história, mostrar uma imagem que se parecesse com a realidade fazia sentido para os seres humanos e isto se tornou, por muito tempo, uma questão de suma importância para a arte e para a sociedade. Representar nada mais é do que colocar algo no lugar de alguma coisa ausente. É um modo de evocar, referenciar-se àquilo que não está ali para fazê-lo presente no discurso, logo, representações mentais, conceituais e visuais são modos de construir significados. Neste sentido, ater-se à forma, à aparência das coisas é uma maneira de manter-se fiel à existência das mesmas e trazê-las para o discurso de uma maneira convincente, logo, representar algo de maneira semelhante ao que se parece é uma boa estratégia discursiva.


Obviamente, nem sempre as imagens fazem justiça à natureza ou à realidade visual à qual pertencem, parecer-se com alguma coisa já é um modo de dizer o que se pretende com maior ou menor precisão sobre o assunto. Se olharmos para as manifestações artísticas da humanidade, vemos que os primeiros seres humanos criavam imagens com sentido mágico, simbólico, espiritual e não documental ou expressivo, portanto, não havia qualquer obrigação de fazer com que as imagens se parecessem com o que viam. Estas imagens podiam ou não se parecer com as coisas do mundo, a proximidade anatômica era mais uma decorrência da observação e do conhecimento sobre os animais com os quais convivia e dos quais dependia para viver do que resultado de estudos sistemáticos sobre eles.


Entretanto, a representação da figura humana não era uma prioridade nos primeiros momentos, considerando que as figuras criadas eram vinculadas à rituais de magia propiciatória, provavelmente destinadas a facilitar as caçadas e não a conhecer o ser humano.
Embora algumas representações humanas surjam na pré-história, elas não fazem referencias precisas à anatomia, são apenas figuras estilizadas antropomorficamente, como humanoides, mas pouco parecidas com os seres humanos, alguns exemplos podem ser destacados como as Vênus pré-históricas de diferentes locais e períodos:


Venus de Willendorf, Austria


Venus de Hohle Fels, Alemanha





Do mesmo modo que podemos destacar outras imagens do Brasil, como as da Serra da Capivara, no Piauí.


Serra da Capivara, Piauí, Brasil






Entretanto, é na Antiguidade que começam a surgir as manifestações mais próximas à anatomia humana. Nesta época, as manifestações visuais constatam a existência de estrutura óssea, muscular e até mesmo fisionômica, a aparência do modelo influi na construção da imagem.
Seguindo o percurso da Arte Ocidental, vamos perceber que as representações humanas vão, aos poucos se tornando mais humanas e menos estilizadas desde as primeiras manifestações da humanidade como:



Os Orantes sumerianos, que por acaso, não são um bom exemplo de anatomia humana.



Além dos Acadianos



Dos Babilônicos





Assírios




E Persas






No contexto dos Mara Egeu, vamos encontrar as imagens de Cíclades e Creta.




Cíclades







Creta









Embora os Egípcios, por conta do desenvolvimento dos processos de mumificação, tivessem um bom conhecimento anatômico e mesmo da fisiologia, estes conhecimentos não são demonstrados nas representações artísticas, suas imagens eram definidas por convenção e não pela aparência das pessoas.













Na Grécia Arcaica já há pretensões de mostrar uma aproximação maior com o corpo humano, embora a estrutura anatômica seja, praticamente, intuitiva.






















No Período Clássico grego, há maiores preocupações com a anatomia, embora canônica, idealizada e não necessariamente naturalista.









Para os Romanos reproduzir com fidelidade o visível era uma questão de honra.

















Imperador Augustus e Cupido



































Os Retratos Romanos revelam maior aproximação fisionômica

























Arte Paleo-Cristã, a Idade Média não foi um bom período para os estudos de anatomia.








Naquele tempo, as imagens eram bem rudimentares e se preocupavam em narrar uma história ou acontecimento religioso e não em reproduzir o visível.


















Um exemplo é a Arte Bizantina





















Mas é no Renascimento Italiano que a anatomia deixa de ser algo intuitivo e passa a ser estudada e ser desenvolvida como um elemento de significação tão importante para a qualificação do artista a ponto de tornar-se um campo de estudo científico.
A produção artística deste período recebe um reforço extraordinário da observação do mundo e sua transformação em imagem por meio da perspectiva na superfície plana e da escultura no contexto ambiental tridimensional. Um bom exemplo é o escultor Verrochio que mostra uma anatomia humana perfeita.




Renascimento, Davi de Verrochio




















Os primeiros anatomistas deste período foram Mondino de Luzzi, Leonardo Da Vinci, Walter Hermann Ryff, Andreas Vesalius.
Mondino de Luzzi
Mondino de Luzzi, or Mundinus de Liuzzi or de Lucci, (1270 – 1326), anatomista, escritor e professor de cirúrgia que viveu em Bolonha e estimulou a prática da dissecação pública.
Mondino de Luzzi, “Lesson in Anatomy”, originally published in Anatomia corporis humani, 1493.







Mondino dei Liuzzi (1270-1326) assiste ad una dissezione dalla cattedra; incisione tratta da Fasciculus medicinae (1493)









Entretanto, é com Leonardo Da Vinci, (1452-1519), que vamos reconhecer um dos primeiros estudiosos da anatomia humana. Ele não se preocupou apenas com a anatomia, mas também em compreender o funcionamento do corpo humano: a fisiologia.







Sua discussão sobre proporções, a partir do desenho chamado de “Homem Vitruviano”, de 1490, traz o conceito da Divina Proporção para o Renascimento. Talvez tenha sido este um dos pontos de contado de Da Vinci com o interesse pela anatomia.


























Mais tarde, o estudioso Alemão Walter Hermann Ryff, publica em 1542:





"Die Kleyner Chirurgei,“











Com Andrea Vesalius, (1514-1564), os estudos de anatomia vão encontrar seu maior aliado e difusor. Seu livro: De Humani Corporis Fabrica, publicado em 1543 é um atlas de anatomia humana, didático e eficiente para este campo de conhecimento.







Pode-se dizer que Andreas Vesalius foi criador do primeiro livro para estudos médicos.





O tempo passou e Vesalius deixou seguidores um deles, nosso contemporâneo é Gunther Von Hagens. Professor de anatomia, alemão, nascido aos 10 de janeiro de 1945, em Liebchen, é o criador da técnica de Plastinação que, aplicada em cadáveres, é capaz de para preservá-los para o estudo de anatomia. Todavia, ao contrário de manter o corpo fixo, imóvel e disforme, explora a ideia de movimento e, com isso, sugere dinamismo e ação, o que, ironicamente, dá vida ao corpo inanimado.







Suas peças são uma homenagem ao ser humano, à vida e, contraditoriamente, à morte:








Enfim o corpo humano nos atrai mas, nem sempre nos agrada...