domingo, 31 de março de 2013

ARTE E ARTESANATO

Algumas vezes ficamos em dúvida em relação a estas duas proposições: arte ou artesanato?


http://istoecampanha.blogspot.com.br/


Acima, uma imagem típica do artesanato nordestino com temática regionalista.


Em contraponto, mostramos uma obra de Jackson Pollock:





De modo geral a arte tem por meta a realização de obras que motivem, em última instância, o apreciador à reflexão estética, finalidade da expressão artística. O artesanato, por sua vez, não visa a apreciação estética, embora no contexto de sua produção, evoque certos componentes estéticos. É o caso do Action Painting - ação/pintar, de Pollock que mostramos acima. O trablho de Pollock se baseia numa reoperação do conceito de pintura e se propõe a revolucionar o contexto da arte contemporânea.





Entretanto, se observarmos a realização de uma obra de arte pictórica tradicional, por exemplo, há que se dominar o manuseio de instrumentos de pintura, os pincéis. Isto depende de controle motor fino, ou seja, um treinamento para controlar os pincéis com os dedos, a mão, o braço e o corpo para que possamos orientar o caminho da pincelada na construção da pintura. Se o tema for figurativo, há necessidade de dominar a apreensão do mundo visível: das figuras, das formas, das cores, das tonalidades, do espaço, etc. etc. etc. Tais domínios são também necessários a um artesão que pinte, portanto, em relação à questão do domínio técnico tanto o artista quanto o artesão estão, neste aspecto, em pé de igualdade. Neste caso a obra acima do americano Chuck Close nos confunde ao imitar, num de seus auto-retratos, uma imagem de características fotográficas, embora seja uma pintura.


Entretanto, não é apenas a técnica ou a habilidade em realizar uma tarefa que qualifica um artista ou um artesão.





Peça de artesanato indígena onde a temática e o material se origina no seu meio ambiente.


O artesão não tem qualquer preocupação em propor maiores reflexões em torno de seu trabalho, senão ofertar um produto que ele sabe fazer muito bem. Normalmente o que ele faz é desenvolver suas habilidades manuais para a realização de um produto e investir na sua reprodução em maior escala e, como não é industrial, a manutenção de sua atividade depende em grande parte de seu fazer individual, o que exige dele apenas habilidades pragmáticas, pouco reflexivas. Para ele, basta fazer bem o que se propõe a realizar, isto é suficiente para mantê-lo ativo em relação ao seu público e exercer o seu ofício.





Pintura artesanal publicada no rj.quebarato.com.br,oferecendo as habilidades do pintor.





Diferentemente de Romero Brito, festejado pintor brasileiro que conquistou o universo artístico dos Estados Unidos e hoje, opera em níveis diferenciados de produção transformando seus trabalhos em grife, aplicando-os à diferentes objetos de uso pessoal como bolsas, copos etc. Neste caso, salta do universo da prática expressiva pessoal para um modelos de comércio de base industrial.








Mas, ao artista não basta fazer bem algo, é necessário ir além, é preciso promover a interação entre a obra e o apreciador, estimular o diálogo, a reflexão crítica, o pensamento estético e aprofundar os conceitos que amparam a realização de seu trabalho poético. Em suma, enquanto o trabalho do artesão é essencialmente pragmático, prático e objetivo, o do artista é filosófico, intelectual e subjetivo.





É o caso de Waltércio Caldas, artista brasileiro dedicado a criar novos estímulos estéticos, por meio de diferentes tipos de material e propostas, típico artista conceitual que, no processo de criação,envolve a própria reflexão estética.
(Imagem obtida no blogartemix.blogspot.com.br)


Como vemos, estes são dois universos parecidos, mas extremamente distintos, cada um no seu contexto. O artesanato se enquadra no que chamamos de arte popular, atende aos interesses do público em geral,sem qualquer particularidade. A arte, dita erudita, é um campo de experimentação e pesquisa especializada que opera num sistema complexo e sofisticado, dependente da intermediação de estudiosos e críticos para atingir a plenitude de suas proposições. Enfim, quando pensamos nestes dois contextos, fazemos inferências e exercitamos nosso conhecimento sobre arte, boas reflexões....

quinta-feira, 7 de março de 2013

A arte de... Comer com os olhos...




Na postagem anterior tomei como tema a relação da arte com a comida, especialmente o gênero Natureza Morta, no qual a relação com a culinária é abordada de várias maneiras pelos artistas. Entretanto, olhar para os alimentos como um tema e torná-los parte do cotidiano, seja numa pintura exposta num refeitório ou ilustrando um livro ou revista culinária, exige diferentes habilidades tanto na construção do olhar quanto na construção da imagem. Coisa de artista mesmo.
A tradição pictórica do século XVII se esmerou nesse conhecimento, é só lembrar as imagens de Jan David de Heen e de Juan Sanches-Cotan, dois representantes eficientes desse gênero.








O tempo passou, mas de vez em quando, algum outro artista se dispõe a rever o gênero e ressignificar o processo sem se afastar dessa tradição pictórica. Nesta linha de raciocínio, vamos encontrar o holandês Tjalf Sparnaay artista que trilha uma versão renovada do Hiperrealismo, reminiscência talvez das décadas de setenta e oitenta do século passado, chamando de megarrealismo, um neologismo criado para explicar sua postura.





O que encanta em seus trabalhos, é justamente a habilidade de enganar o olho, o antigo Tromp Le Oeil, tão caro aos artistas barrocos que ele traz de volta numa roupagem mais atual, falando da comida do dia a dia contemporâneo, onde os hambúrgueres, batatas fritas e pratos executivos são a estrela da festa. Seus trabalhos nos aproximam, digo melhor, estimulam nosso paladar com obras dignas de uma bela mordida...











Em termos nacionais, para falar apenas de um artista, vamos recuperar as obras de Antonio Henrique do Amaral que, na década de 70 passada, olhou para o Hiperrealismo e concebeu a série “Campos de Batalha”, nos quais elementos culinários como pratos, garfos, facas, bananas e cordas encenavam, simbolicamente, um confronto agressivo entre estes elementos nos quais as cordas, os garfos e facas levavam a melhor... Referência à repressão, à violência daqueles dias?... Talvez, mas marcaram época...














O encantamento do olhar costuma acompanhar o fazer culinário, tanto as elaborações dos chefs quanto a documentação visual de seus trabalhos são dignas de figurarem numa coleção artística. Quem nunca se encantou com um “sushi composê” ? A culinária japonesa é um bom exemplo dos arranjos visuais à mesa, ela sempre primou pelo visual: antes de encantar o paladar, encanta primeiro o olhar...








Mas, para que tenhamos este prazer, que começa pelo olhar e termina pelo degustar, precisamos ter estas obras culinárias ao alcance da mão, entretanto, se não tivermos essa plena felicidade podemos, pelo menos, apreciá-las, dedicando-lhes um longo olhar e, para isto, contamos com a fotografia.


A fotografia, nos últimos anos, tem sido a intermediária, a mediadora entre o olhar e o paladar, cumprindo esta missão com dedicação e esmero dignos de um gourmet.


Dito isto, vamos destacar também alguns autores que tomam os alimentos de um modo diferente dos chefs, eles os manipulam para criar obras de arte visual e não para elaborar alimentos.


Cortar e fatiar alimentos para o consumo é comum, no entanto, fazer isso para tê-los com temas para fotografia não é tão comum assim. É o que propõe o fotógrafo turco Sakir Gökçebag:











Fotografar frutas e alimentos envolvidas pela ação de minihumanos é algo inusitado, mas é isso que faz o fotógrafo americano Christopher Boffoli:





A fotógrafa americana Sandy Skoglund trabalha com diferentes temas, inclusive texturas de alimentos combinando figuras e fundos com inspiração geométrica ou orgânica:











O videomaker e fotógrafo francês Alexandre Dubosc realiza imagens usando alimentos em circunstâncias inusitadas e criativas:











Diretamente de Seul, a designer de moda Sung Yeonju utiliza alimentos para criar peças de vestuário no mínimo saborosas... com um visual incrível, mas pouco práticas...











O fotógrafo inglês Carl Warner usa comida para criar paisagens bucólicas e deliciosas, na acepção direta da palavra...








Na atualidade o numero de publicações gastronômicas, programas de vídeo e a publicidade em larga escala de restaurantes, turismo e da própria culinária, tem sido responsável pelo contínuo apelo visual, um eficiente convite ao olhar, que nos estimula para o degustar, aguçando o nosso paladar feito a campainha de Skinner... O olhar estimula a salivação, o prazer da boa comida antecipado-a pelo requinte da imagem. O universo da fotografia gastronômica ou culinária vem se ampliando se antes, era tomada como uma simples ilustração, hoje num livro de culinária que se preze tanto o chef quanto o fotógrafo assinam as criações. Como as coisas mudaram não é?





Outro segmento profissional que se revelou nesse contexto da imagem-arte-comida foi o do Food Stilist, ou seja o estilista de alimento, é aquele que auxilia o fotógrafo ou mesmo os donos de restaurantes, bufês a organizar o visual de seus produtos para ficarem bem na foto.


Jaime Reyes é um destes profissionais que faz mais prazerosa a comida, tornando-a visualmente mais apetitosa.








Brian Preston-Campbell é outro food stilist que cuida dos pratos para serem fotografados.











Para não ficar atrás, vamos mostrar também o trabalho de um brasileiro, Paulinho de Jesus, um dos fotógrafos que opera no contexto do Photo Food com excelente performance...





A fotografia culinária constitui atualmente um capítulo à parte na editoração fotográfica impressa ou digital na atualidade, a Photo Still, originária do Still Life ou simplesmente, Natureza Morta, além de um domínio técnico específico, é um campo de criação e expressão rico e em franca expansão, logo, "comer com os olhos" tornou-se uma realidade... Deliciosa...