sábado, 23 de fevereiro de 2013

Arte Visual e culinária: uma aproximação prazerosa.

Para quem gosta de culinária, este texto também está publicado no meu novo Blog: www.confrariadacasserole.blogspot.com.br, conto com sua visita, mas vamos ao assunto:


Culinária é arte! Já ouvimos isso tantas vezes que aceitamos sem qualquer contestação que fazer comida é o mesmo que fazer arte. Embora seja possível levantar prós e contras e discutir esta afirmação no contexto da estética não vamos caminhar por ai, a preocupação neste texto é olhar para estes universos de um modo mais prazeroso e menos técnico.


Vários artistas, ao longo do tempo, tomaram por tema os alimentos, a culinária ou o lugar das refeições. A célebre “Santa Ceia” de Leonardo Da Vinci é, sem dúvida nenhuma, um bom exemplo disso. Inclusive porque foi pintada no refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, por volta de 1495. Falar da última reunião de Cristo com seus discípulos, em torno de uma mesa, onde o alimento passa a ser sinônimo de fé, tem um peso simbólico muito grande, o alimento do corpo se torna também o alimento da alma.








Desde os primeiros tempos, na antiguidade, por exemplo, temos manifestações que revelam a presença da culinária e se tornaram parte do mundo da arte. Nos murais egípcios vamos encontrar obras nas quais o alimento está presente, seja como processo ou cultivo, fonte de domínio, poder e conhecimento, já que para manter um reino daquelas proporções, era essencial manter a produção de alimentos também em grandes proporções, logo era essencial preservar técnicas de plantio e processos de fabricação, as pinturas e afrescos serviam para isso.



Colheita e fazendo vinho, preparando assados e realizando a pesca, imagens de túmulos da 12ª. Dinastia egípcia.



Cozinheiro fazendo pão, afresco no Museu do Louvre, cred: Peter Barritt, super stock


Na Itália dos imperadores, o que restou dos afrescos nas “Villas” em Pompeia, mostram isso, neste caso, tais imagens cumprem mais a função decorativa do que informativa.



Natureza-morta - Fresco de Pompeia, c. 70 d.C



Mosaico oriundo da Villa Tor Marancia, no Museu do Vaticano


A recorrência aos alimentos na arte é tão grande que a tradição acabou por criar um gênero de manifestação artística chamado de “Natureza Morta”, Still Life em inglês ou Bodegon, em espanhol. Este tema aborda, na maioria das vezes, peças de caça e pesca, frutas, legumes, embutidos, utensílios culinários, arranjos de mesas e muitos ingredientes capazes de fazer inveja aos chefs de hoje em dia, tamanha a diversidade dos produtos mostrados.


No Renascimento, no norte europeu, artistas como Pieter Bruegel e Hieronimus Bosch fazem referências à culinária do dia a dia em suas obras.



Pieter Bruegel, o velho, fala da festança de um casamento camponês em 1567.


Hierionimus Bosch, fala do pecado da gula em um detalhe de seu retábulo: Os sete pecados capitais, de 1500-25, parte do acervo do Museu do Prado. Cujo detalhe descreve os males da Gula.






No período Barroco, podemos destacar dois artistas cujas obras são marcos da virtuose pictórica nesse contexto: Jan David De Heen, holandês e Juan Sanches-Cotan, espanhol. Ambos deixaram obras que elevaram o gênero da Natureza Morta à distinção absoluta. Em suas obras nada fica a dever, nem mesmo, à moderna fotografia, tamanha é a habilidade destes artistas e seu esmero técnico.


Jan David de Heen:






Juan Sanches-Cotan:





Neste mesmo período não podemos esquecer também a presença de Diego Velázques, na célebre obra “ Mulher frigindo ovos”, como também os nomes de Willem Claesz, e Peter Claesz. É claro que muitos outros artistas da mesma época mereceriam destaque, mas faltaria espaço para todos eles.











Na passagem do século XIX para o século XX, há um período, chamado Modernidade, no qual se instauram a liberdade de expressão, a experimentação e a criatividade que se tornam as principais metas dos artistas, mesmo assim a temática culinária se manteve forte e em alta. Encontramos bons exemplos disso nas obras de artistas como Van Gogh, Matisse, Cezanne, Braque, Picasso, Morandi e Dali, apenas para citar uns poucos.


Van Gogh:



Matisse:



Cezanne:



Braque:



Picasso:



Morandi:



Salvador Dali, sobre Dali seria interessante abrir outro capítulo, quem sabe noutro momento, para falar com mais tempo sobre uma edição, concebida e ilustrada por ele chamada “Les diners de Gala”, livro publicado em 1973, também chamado de Dali cook book. Gala foi sua esposa e modelo, mereceu o título do livro.




















Tomando a arte mais recente, na década de sessenta do século passado, vamos encontrar representantes da arte Pop, como Claes Oldemburg com seus Hamburgueres de plástico e Andy Wharol, com a famosa Sopa Campbell´s numa referência explícita à cozinha no seu cotidiano.


Claes Oldemburg:



Andy Wahrol:Limões e Sopa Campbell´s, talvez uma referência à natureza-morta industrializada...






No ambiente conceitual, podemos lembrar Marcel Broodthaers, com sua Caçarola de mexilhões fechados, de 1966.





Olhando para o contexto nacional podemos destacar Vik Muniz, que se apropria de ingredientes, como o açúcar e os doces, de alimentos como feijão e o macarrão para construir suas obras inusitadas.














Entretanto, se eu fosse escolher um artista entre muitos, destacaria um dos que chama a atenção pela sua inventividade e, principalmente, por estar adiante de seu tempo, antecipar a arte moderna, com o surrealismo e a arte conceitual: Giuseppe Arcimboldo, um artista italiano do século XVI, 1527-1593, que passou a maior parte de sua vida a serviço dos imperadores da Boêmia, Fernando I, Maximiliano II e Rodolfo II, em Praga. O interessante em Arcimboldo é que ele se afasta das naturezas mortas enquanto gênero, mas mantêm o referencial constitutivo delas nos seus retratos sui generis. Por meio de artifícios visuais e perceptivos cria a ilusão de que os retratos se originam de vegetais e outros elementos naturais agrupados ou aglutinados. Muito criativo e maravilhoso.Um bom exemplo disso é o retrato de Rodolfo II, Vertumnus, feito em 1561, como se o rei fosse um aglutinado de vegetais, frutas e legumes. Embora recorra à essência da natureza morta, mantêm-se no contexto do gênero pictórico do retrato.








Dentre várias de suas obras, destacamos algumas que fazem referência direta ao contexto da alimentação como é o caso do Hortelão, curiosamente a visão do quadro pode ser feita de duas maneiras: numa posição é um recipiente de legumes, na posição inversa, de cabeça para baixo, é o próprio hortelão, 1590.









O Assador, 1570, mostra a figura do cozinheiro retratada como se fosse constituída por peças de assados.


O Jurista, duas versões uma de 1566 e outra de 1569. Mostra um sujeito construído por meio de alimentos, talvez pelas preferências gastronômicas de um de seus conhecidos na corte...



Dos elementos da natureza, destacamos a água





Composta por peixes e demais frutos do mar, 1566


Enfim, parafraseando um dito popular, podemos dizer: Nem só de pão vive o homem... é preciso verduras, legumes, carnes e temperos...
Brincadeira à parte, falar de arte e culinária é prazeroso, tanto quanto degustar um bom prato.