segunda-feira, 28 de setembro de 2009

CRÍTICA E CURADORIA: MEDIAÇÕES NECESSÁRIAS

Num de meus últimos artigos neste blog, abordei a questão da crítica de arte e a explicitei da seguinte maneira: “Crítica, feminino de crítico, cuja origem vem do grego kritikós resultando no latim criticu, cujo sentido, no campo da arte visual, se refere à apreciação, julgamento e valoração das obras de arte.”. O exercício crítico se faz em vista das realizações artísticas. Quer seja de um autor, de um grupo deles, de um movimento ou de uma proposição artística que seja e por pessoas que detêm o conhecimento da arte e de suas características. Nos últimos anos, em especial a partir da década de oitenta do século passado, temos ouvido falar em “Curadoria” quando se trata de organização de eventos artísticos ou culturais. Este é um termo que tem sido usado e aceito em várias regiões do globo para se referir à produção de eventos nestas áreas. Talvez tenha sido tomado de empréstimo da área jurídica, que se referia à nomeação de alguém para administrar bens de menores ou de pessoas que, por um motivo ou por outro, eram incapazes ou impedidas de gerir seus próprios destinos. Quem sabe possa ter sido inspirado na administração pública em que Conselhos Curadores são criados para gerir bens institucionais, de qualquer modo, o termo “Curador”, acampou no contexto da arte e, pelo jeito, não vai mais sair daí. É possível justificar a existência dos curadores, mediante a crescente necessidade de especialização requerida pelo contexto da arte contemporânea. Por um lado, para dar conta de suas idiossincrasias, por outro, para intermediar a relação entre as obras e o público. O importante é que se instaurou um novo campo de atuação para os profissionais do pensamento da arte junto aos historiadores, estetas, teóricos e críticos. Além disso, os grandes eventos artísticos têm reforçado necessidade da presença destes especialistas a cada nova edição. É o que está ocorrendo, por exemplo, com as bienais no Brasil e no exterior. É difícil pensarmos, hoje em dia, numa mostra que prescinda de curadoria. Até mesmo as mostras individuais têm-se valido deles para tornarem-se mais eficientes, mais claras e melhor entendidas pelo público. Também na academia esta área vem se mostrando como uma especialidade para a formação pós-graduada e, diversas instituições de ensino superior vêm organizando cursos com esta finalidade. Desde que surgiu, a idéia de curadoria tem sido vítima de maus tratos e enfrentado a resistência de artistas e críticos de arte, especialmente no que se refere ao aspecto autoral. Ao que parece, pensa-se que o artista perde o primado da autoria, pois o curador diz ao público como apreender a obra, coisa que era de exclusividade do artista e o crítico, por sua vez, perde a primazia da análise em primeira mão, pois ao leitor já foram antecipadas dados que o auxiliam a tirar suas próprias conclusões. Tanto um quanto outro tem se armado e combatido a curadoria com veemência, mas, nem sempre, o fazem por motivos justos. É essencial entender que, justamente pelas condições da arte contemporânea, o surgimento da curadoria é, por assim dizer, um aprofundamento da função crítica. O curador, ao selecionar obras e organizar o modo de mostrá-las, passa a exercer, de antemão, uma função que antes cabia ao crítico, mas que era exercida a posteriori. Nas condições da arte atual, não é mais possível esperar pela intermediação do crítico para a compreensão das obras já que, grande parte delas é realizada em “tempo real”, ou seja, performances, instalações, intervenções devem ser compreendidas e assimiladas “on time”, portanto, se dependerem de algum esclarecimento, ele deve ser dado ao mesmo tempo em que o evento ocorre, senão corre-se o risco de falar ao vazio. Obviamente o curador não é artista nem crítico ou, pelo menos, não exerce estas funções ao realizar o processo de curadoria. Embora sua atuação possa ser confundida ora com um, ora com outro já que há uma “assinatura” no conjunto da mostra que revela um percurso, uma proposição e, até mesmo, uma condução autoral. Entretanto, não há curador capaz de transmutar água em vinho, tampouco prescindir do artista ou do crítico, a cada um cabe a habilidade do seu fazer. Penso que o curador tem se configurado como mais um elemento que, ao inserir-se no contexto ou no sistema de arte da atualidade, o faz para lhe dar-lhe mais eficiência cultural e institucional. Ao fim e ao cabo, vemos que o curador vem se tornando um dos responsáveis pela mediação entre arte e público, tanto quanto são os críticos e demais teóricos da arte. A complexidade da qual vem se revestindo a arte nas últimas décadas, mostra que ela não é coisa para amadores, ao mesmo tempo, precisamos acabar com a idéia de que a arte é um universo de código fechado que só serve para os artistas e seus agregados. Fica claro que sem uma intermediação eficiente a arte estará cada vez mais distante do público. Sem orientação será cada dia mais difícil integrá-la ao contexto social como um elemento significativo da nossa cultura. É neste sentido que tanto a crítica quanto a curadoria, são elementos importantes para a formação do pensamento estético e contribuem, sem sombra de dúvida, para o crescimento da arte e para o desenvolvimento de suas análises, portanto a Crítica e a Curadoria são duas áreas coadjuvantes, integradas e responsáveis, ao mesmo tempo, pelo processo de construção de um projeto que visa a consolidação do pensar, do fazer e da compreensão da arte como um bem cultural imprescindível ao ser humano.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A arte e o macaco

Nós, que trabalhamos com arte, temos sido confrontados, de novo, com a possibilidade de um macaco pintor. Por mais divertido que isso possa parecer, cabe uma reflexão sobre as condições e o fazer da arte. Tal questionamento surge agora em novela televisiva em que, parte da trama gira em torno de uma galeria de arte. A novela, assinada por Walcyr Carrasco, inclui no elenco além das atrizes e atores habituais, um macaco tido como pintor, estratégia usada para “desmistificar o universo das artes”, segundo o autor. Na trama, um artista, habituado a expor em feiras de arte em praças públicas, cede à insistência do filho e convida a gerente da galeria para visitar o seu atelier. Por obra do acaso ou do “destino”, no dia da visita, o atelier é invadido pelo macaco que transforma suas obras figurativas, de caráter acadêmico, em imagens abstratas. Por maior que seja seu espanto, a visitante adora as telas e se empolga a ponto de agendar uma exposição individual para ele que, sem opções, acaba por aceitar a oferta. Isso implica em aceitar também a “ajuda” do símio invasor que passa a ser, de fato, o autor das obras e nesse momento se instaura a relação macaco/arte. Meses atrás, este mesmo assunto foi tema de Millor Fernandes que, em um artigo, num conhecido periódico nacional, retoma a questão do macaco artista e rememora o percurso que esta polêmica desenvolveu no contexto da arte desde a década de cinqüenta do século passado. Assim, estes ingredientes: televisão, imprensa e arte passam a constituir um objeto de estudo interessante e, já que meu universo de pesquisa e análise é justamente o das relações entre Imagem e Mídia, optei por fazer desse assunto o tema desse pequeno ensaio. Uma síntese deste artigo foi publicado no Correio de Uberlândia no dia 01/09/2009,na sessão "Opinião",em "ponto de Vista",pag. A2. Voltando ao passado, a idéia do Macaco Pintor é um tema recorrente na pintura dos séculos XVIII ao XIX, esta figura freqüentou obras memoráveis de Chardin (XVIII), Colleville (XIX), Deschamps (XIX), Vollon (XIX) e Von Max (XIX). Motivados pelo aspecto satírico ou, talvez, pela atração que os símios exercem sobre nós em função de sua capacidade de imitar as características humanas, estes artistas realizaram pinturas em que macacos eram retratados como pintores ou apreciadores de arte. A ficção, por sua vez, explorou inúmeras vezes esta possibilidade como no conto “Um relatório para a academia”, de Franz Kafka, onde um ex-macaco de circo narra sua transformação em gente, por ânimo e glória de seu amestrador que o mobiliza em torno de um aprendizado para ser humano, à despeito da agressividade e barbárie deste adestramento. Ao fim e ao cabo, esta parece ser a missão dos amestradores: humanizar a animalidade, já que o que se espera do animal adestrado é um comportamento que o torne parecido conosco. O que pode ser comprovado quando olhamos espetáculos em que os animais são vestidos como se fossem gente e levados a realizar tarefas como se pessoas fossem. Era comum vermos animais usados como atração em espetáculos circences, ainda bem que, hoje em dia, isto já está fora de moda. Argumento semelhante a este obteve sucesso também no cinema, com o “Planeta dos Macacos”, sob a direção de Franklin J. Schaffner, realizado em 1968, em que um astronauta, interpretado por Charlton Heston, aporta num planeta governado por macacos evoluídos, onde a espécie humana é primitiva. Ao longo da trama se descobre que o planeta é justamente a terra, no futuro, destruída por um conflito nuclear, fato que possibilitou a evolução dos símios e a “in-volução” humana. Outro exemplo da humanização do animal pode ser lembrada na fábula de 1945, “A revolução dos Bichos” de George Orwel. Em que os animais de uma fazenda se rebelam contra os maus tratos e tomam o poder em busca de sua liberdade e autonomia. Mas, ao delegar entre eles as tarefas do poder, são contaminados por este mesmo poder e se tornam cada vez mais humanos, no pior sentido de humanidade: ditatoriais, autoritários e repressivos. No entanto a possibilidade de evolução dos símios nos parece remota, na medida em que é pouco provável que o seu percurso evolutivo possa ser cumprido em tempo recorde, especialmente pela lentidão que este processo exige. Portanto, só resta a eles a possibilidade da imitação e, com isto, se parecerem menos animais nos convencendo de que podem ser um pouco mais humanos. Voltando ao ponto inicial, esta polêmica parece ter sido instaurada por Desmond Morris, pintor e zoólogo americano que, na década de 50 do século passado, estimulou um chimpanzé a desenhar e a pintar, levando Tyler Harris a escrever um livro valorizando o processo “criativo” de Congo, o macaco pintor “descoberto” ou “amestrado” por Morris. A polêmica instaurada por Morris/Tyler, veiculada na década de 60 num programa de televisão sobre animais que Morris manteve nos EEUU, mobilizou a crítica em torno da possibilidade de um macaco ser capaz de produzir arte. Instaurada a polêmica, Picasso, ao ser presenteado com uma obra de Congo, bota lenha na fogueira imitando o andar do macaco e dizendo serem “irmãos de armas”, ou ainda, Salvador Dali, colocando ainda mais lenha na fogueira ao dizer que: “A mão do chimpanzé é quase humana; a mão de Pollock é totalmente animal”. Inadvertidamente, tanto Picasso quanto Dali acabaram por dar corda ao debate em curso na época. Mais tarde, surgem outras estrelas da arte simiesca, agora gorilas, é o caso de Michael e Koko, dois exemplares de pesquisa sobre inteligência animal, da Universidade de Stanford, coordenadas pelo Dr. Penny Patterson. Independente dos objetivos da pesquisa, que seriam os de descobrir seu nível de inteligência, mediante a capacidade de compreensão da linguagem humana e de símbolos como os da geometria e da matemática. O que é possível de obter com certa freqüência, admitindo que os experimentos também promovem o treinamento intensivo destes animais, tornando-os aptos a reagir aos estímulos construídos pelo ambiente da pesquisa, o que nada mais é do que condicionamento operante. Tal procedimento também pode levar a obtenção de sucesso no contexto dos fazeres da arte, como no caso de ocorrências gráficas ou pictóricas. Mesmo considerando que estes gorilas são os protagonistas de um programa de apoio a um projeto institucional de ajuda para a preservação da espécie, não se justifica a manipulação da opinião pública em torno da idéia de existência de uma arte simiesca. Nestes ambientes, são estimulados também a exercerem seus “dotes” artísticos mediante diferentes estímulos externos. O caso destes e dos outros macacos, sempre esteve envolto numa aura de desconfiança e de incredulidade, o que coloca em dúvida sua capacidade de pensar/imaginar por conta própria, já que, a performance dos bichos era sempre presenciada pelos pesquisadores/amestradores. Outro aspecto interessante no limitado universo destes animais artistas é que sempre se expressam segundo uma poética não figurativa, não naturalista, impossibilitando aos avaliadores o confronto com outras manifestações artísticas reconhecidas, ou seja, a opção dos símios sempre foi pela arte “abstrata”. Como dizia Morris “Expressionismo abstrato lírico”, mais próxima das garatujas infantis do que da Arte propriamente dita. Além disso, a opção pela expressão em superfícies bidimensionais é providencial, já que é mais fácil controlar o espaço onde estas “criações” são realizadas. No caso de Congo, numa cadeira de criança adaptada para a colocação dos papéis e das tintas, cujo “estilo” preferido por ele era o “Fan”, ou seja “Ventilador”, em que a ação era realizada em linhas verticais, radiais tendo como eixo a proximidade com o seu corpo, mantendo como limite máximo o prolongamento de seu braço. No caso dos gorilas a delimitação também ocorre pelo alcance de seu corpo e o campo de ação e deslocamento em que se encontram. Tanto uns quanto outros são essencialmente “gestuais”, daí a comparação com Pollock. É também interessante notar que nenhum deles “opta” pela expressão tridimensional como a modelagem, a escultura ou qualquer modalidade expressiva que se afaste de lápis, pincéis, tintas e papéis. Outrossim, não demonstram nenhuma ação programática, intencional ou propositiva. Assim acabamos nos afastando mais e mais da possibilidade de termos um macaco pintor, do mesmo modo que nos afastamos igualmente da possibilidade de termos um papagaio cantor. Por outro lado a polêmica não se encerra por aqui sem mais nem menos, mas indica um outro rumo, rumo este pouco explícito que é o da crítica velada à condição da Arte Moderna. Como se sabe, o Modernismo foi instaurado sob protestos e as críticas ácidas do conservadorismo vigente no fim do século XIX e início do século XX. Romper com um modelo conservador como era o da arte Clássica tradicional e mesmo com o Academismo que vigorava em alguns casos, foi imperdoável. A reação foi intensa e contínua excluindo do meio artístico aqueles que não se submetiam ao modelo vigente. Um pequeno exemplo disso ocorre com os artistas na França com a instauração do “Salão dos Recusados”, aberto em oposição e protesto à recusa de participação de vários artistas inovadores no tradicional Salão de Paris, em 1863, destinado exclusivamente aos artistas da Real Academia Francesa de Pintura e Escultura. Mais tarde, um bom número dos artistas recusados pelo salão oficial, foram mentores e difusores do Impressionismo e de outras tendências poéticas. Entretanto, os defensores da arte conservadora e tradicional não se conformaram e continuaram detratando os artistas que, segundo eles, só eram capazes de obter uma mera “Impressão” do sol nascente, agiam como “Feras”, nomeando o que seria depois o Fauvismo ou só eram capazes de praticar algumas “Bizarrias Cúbicas”, nomeando também o que veio a ser o Cubismo. Tais ditos, do crítico francês Louis Vauxcelles, reforçavam a visão conservadora, ao mesmo tempo em que estimulavam os vanguardistas a continuar sua sina de provocações e inovações que só surtiriam efeito mais tarde, com o reconhecimento de suas obras e da capacidade criativa destas novas poéticas. Até hoje, aquela maneira de fazer arte, cuja maior agressão foi receber a alcunha de “degenerada”, justificando sua expulsão das galerias e instituições oficiais, da Rússia pelos Socialistas e da Alemanha pelos Nazistas, ainda sofre as mesmas críticas negativas. Contudo, mesmo veladas ou travestidas de humor e de graça, esta mesma crítica volta a ser feita e difundida subliminarmente pela mídia, colocando novamente uma pitada de desconfiança sobre a Arte Moderna, sugerindo que é possível vê-la realizada por qualquer um, inclusive, por um macaco. No fundo, ainda somos conservadores.