sábado, 3 de novembro de 2007

Obra de Arte ou ocorrência estética?

Há alguns dias, numa conversa com outros professores de teoria da arte, acabamos por ressaltar as diferenças entre os modos de pensar as ocorrências da arte visual ao longo do tempo. Durante muito tempo, o conceito de obra de arte como um objeto físico, materializado e acabado num suporte bidimensional ou tridimensional, portador de sentido funcionou muito bem para suportar nossas leituras e observações conceituais, teóricas ou críticas. Sabia-se que uma obra de arte era um objeto e, sem ele, a obra desaparecia, entretanto, nas últimas décadas do século XX, a destituição do objeto enquanto aparato e residência dos conceitos artísticos, provocou um novo problema: como chamar agora o que chamávamos obras de arte? Antes a existência o objeto era prova cabal da existência da obra de arte. Ela era visível, transportável, comercializável, “museificavel”, podíamos configurá-las de várias maneiras, além de coleciona-las, vendê-las, permuta-las etc. A arte não objetual, já inaugurada com o Dadaísmo onde as idéias eram mais importantes do que os objetos que as continham, colocou em xeque a necessidade corpórea da arte visual. O Cubismo, desde 1907, já havia deslocado o leitor para o entorno do objeto, embora suas telas ainda o mantivessem posicionado diante dela. Mas foi durante as décadas de 60 e 70, do século passado, que a apreciação artística passou a tomar as obras de modo diferente. Num primeiro momento podemos lembrar as obras de Calder, seus Móbiles, que insistiam em não ficar paradas, movimentavam-se o tempo todo, proporcionando diferentes olhares sobre os mesmos e mutáveis objetos. Na mesma época, outra proposta, quebra a observação de uma posição fixa, possibilitando ao apreciador toma-las por meio do deslocamento dentro e fora delas, são as instalações decorrentes da Arte Ambiental, ou Enviromental Art, onde os apreciadores não são entes passivos e posicionados num dado ponto de vista, mas apreciadores ativos, cinéticos, sinergéticos que se apropriam estesicamente de uma instalação, vivenciando novas e inusitadas situações que, uma obra convencional, não seria capaz de proporcionar. Mais tarde surgem as ocorrências da Land Art, onde as intervenções ambientais ocupam os mesmos espaços vivenciais das pessoas, ocorrendo nos ambientes urbanos e naturais, mudando nosso modo de olhar, tanto em relação ao ambiente cotidiano, quanto em relação às próprias obras. Portanto, é necessário repensar as manifestações artísticas, não só segundo o olhar tradicional, por que não dizer um olhar pré-moderno, mas admitir que a modernidade já alterou este olhar para um estágio trans-moderno, para não falarmos em pós-moderno e complicar a inteligibilidade do texto com conceitos históricos ou filosóficos ainda não resolvidos à contento. Este olhar trans-moderno, implicaria na consciência de que a modernidade já cumpriu sua vocação e que agora é preciso encontrar um novo modo de discutir as manifestações contemporâneas sem contaminá-las dos olhares anteriores. Neste caso, poderíamos chama-las de Ocorrências Estéticas, independente do lugar em que se manifestassem, quer fosse uma Instalação ou Performance em ambiente fechado ou aberto, no meio urbano, natural ou virtual. É óbvio que tomar a questão de nomenclatura não é um aspecto essencial da análise, a questão é mais de metodologia do que de identificação, mas o que importa é como olhamos e não o que olhamos.