sábado, 7 de julho de 2007

Pensando e Repensando o Desenho

Dia desses uma de minhas alunas me passa um e-mail em busca de esclarecimentos sobre o conceito de desenho, num primeiro momento, nada mais simples, o que é um desenho senão um desenho? Entretanto, se tomarmos como referência as muitas maneiras de vê-los, é possível interpreta-los segundo vários pontos de vista, revelando assim seus diferentes usos e funções. Então, optamos por refletir um pouco em torno deste tema: As figuras que vemos aqui, a de cima é da caverna de Lascaux, França e a de baixo da caverna de Chavenet, também na França. Ambas dão conta de animais com os quais aqueles seres humanos conviviam. Em cima, vemos um touro, em baixo, dois rinocerontes em confronto. As imagens foram tratadas a traço, gráficamente, ou seja, desenhadas, dando conta da aparência do animal. Mesmo que os traços, e a variação tonal (claro-escuro) não seja naturalística por excelência é possível entender sobre o que elas falam. A primeira coisa sobre a qual devemos refletir é que o desenho é uma construção cultural e varia de acordo com a cultura ou civilização que o produz, portanto, o desenho varia de aparência e de função em cada época e em cada lugar que é realizado. Tradicionalmente podermos dizer que o desenho é um modo de construir sínteses sobre o que vemos ou imaginamos. A principal característica do desenho é seu aspecto gráfico, ao contrário da pintura que revela um aspecto cromático, portanto, o traço, a linha, o contorno é uma característica intrínseca ao desenho, resultante da distinção entre as diferentes matérias, superfícies, nuances, objetos, texturas, e tantas outras coisas que queremos distinguir para mostrar numa imagem. O desenho pode ser entendido como uma diferença visual entre o que é necessário reter e o que é necessário descartar para amparar a informação, como diziam os Gestaltistas, uma distinção entre figura e fundo, por exemplo.Observe três imagens de estudos de uma paisagem, realizadas por G. Banns, nelas vamos perceber que o artista separa, gradualmente, os elementos que vão ser destacados por meio das variações gráficas, construindo diferentes densidades tonais e, ao final, destacando alguns elementos do todo na composição geral. Neste caso, os destaques instituem as figuras e as grafias que amparam aquilo que é destacado, constitui o fundo, fazendo significar uma paisagem. Veja abaixo os trabalhos de Maurits C. Escher, em que problematiza a questão figura-fundo. O que é figura e o que é fundo? Ele não responde a esta pergunta, mas estabelece uma dicotomia entre estas duas entidades perceptivas que a Gestalt já havia identificado, portanto, somos nós humanos que destacamos o que queremos dar a ver ou escondemos aquilo que não nos interessa ver, logo, distinguimos e construímos as imagens do modo como queremos que elas signifiquem. Mas, nem sempre estamos diante de uma diferença tão óbvia assim, há situações que implicam em distinguir nuances tão próximas que apenas os traços não resolvem esta questão. Foi quanto Da Vinci percebeu a necessidade do uso do “sfumatto” que produziria a sensação de variação gradual destas nuances, desenvolvendo estudos sobre a gradação tonal do “chiaro oscuro”. Esta técnica ou estratégia cria o efeito de volume e densidade, adicionando ao desenho uma característica moduladora, ou melhor, modeladora se assim quisemos. Portanto, além do traço, temos a gradação tonal como um recurso plástico incorporado ou inerente ao desenho. Observe o desenho de Alanna Spence, de uma caveira de boi. Podemos dizer que, para os artistas do Renascimento, o Desenho cumpria uma função pragmática, que era servir ao ensaio, ao estudo, às anotações ou ilustrações sobre o que fazer ou como fazer, o que reter ou ignorar e como resolver questões de ordem técnica ou plástica, eram os esboços ou croquis que amparavam o percurso do fazer que se realizariam em uma outra obra mais requintada ou elaborada como uma pintura em afresco, por exemplo. Veja o caso de Michelangelo, num estudo usado na pintura da Capela Sistina, ou ainda, abaixo, um estudo de Da Vinci para a Santa Ceia. De certo modo, os diferentes modos de pensar e produzir desenhos decorrem dos usos e costumes aos quais estamos submetidos enquanto pertencentes à uma dada cultura. Ao longo da história o ser humano usou e abusou de sua liberdade e de seu poder de síntese. Significar, por meio do desenho, era apreender, aprender, reter e também racionalizar a informação, um meio de conhecer e garantir o conhecimento sobre aquilo que informava. Ao mesmo tempo era um modo simbólico de significar que procurava dar conta, não apenas dos aspectos visíveis, mas também dos aspectos míticos ou imaginários, amparado nas suas crenças e necessidades. Para o egipcio, as imagens os ligavam com o extraterreno, era um modo de contatarem o divino e com ele se realacionar, um modo simbólico de dizer. O antigo conceito de Desenho de Observação parte da imitação daquilo que vemos no mundo e da construção de imagens semelhantes a isto, ou seja, pretende ser uma síntese analógica que corresponda, no todo ou em parte, àquilo que vemos, preservando ângulos, pontos de vista, orientação linear (perspectiva), proporção e direção. Logo, para produzi-lo é necessário se amparar em algo visível. No contexto acadêmico, o Desenho de Observação usava como referência, modelos em gesso reproduzidos de partes de esculturas e ornamentos de origem grega e romanas, mais tarde passou a utilizar objetos do cotidiano como garrafas, frutas e utensílios e depois sólidos geométricos, assumindo um ar mais atual. Os trabalhos do americano Matt Elder é um exemplo deste tipo de desenho. Outra estratégia do Desenho de Observação era o Desenho do Natural, ou seja, a imersão do aluno no meio, seja urbano ou, de preferência, a própria natureza com sua diversidade de cores, sombras, planos e acidentes. A finalidade, ou função, deste tipo de desenho, é o de proporcionar ao aprendiz, a capacidade de apreender o visível, respeitando as características inerentes ao que vê, como meio de adquirir e demonstrar habilidades psicomotoras. Ou seja, uma metodologia para aprendizado baseada no reconhecimento do mundo visível. A paisagem de Willy Mauren dá esta sensação. O Desenho de Memória, seria um passo além do Desenho de Observação, ou seja, embora possa se referir ao mundo, não tem a obrigação de imitá-lo, mas sim de reconstruí-lo, por meio de estratégias do imaginário que pode ou não existir ou ter existido, mas apenas se parecer com o que se vê no mundo. A principal característica do desenho de memória é dar conta de aspectos plásticos, criando o efeito de luz e sombra, perspectiva, direções etc. Deve tornar plausível ao olhar aquilo que se cria. Deve, por um lado, indicar que o desenhista conhece as características e qualidades sensíveis do mundo natural e, por outro indicar que é possível criar situações que não ocorreram ou que não são passíveis de ocorrer no mundo, mas possíveis de existir na imagem, ou seja, na imaginação. Isto quer demonstra a aplicação de uma habilidade, ou seja, se sabemos copiar, podemos inventar. Mas observe que o inventar não se afasta do que conhecemos ou do que vemos no contexto natural, portanto, ainda há uma certa aproximação com o acadêmico. Dito tudo isso, onde ficaria o Desenho Artístico? Este é mais um dos conceitos comuns ou tradicionais da arte. Mas como distinguir o desenho, em geral, do desenho artístico, em especial? Uma resposta direta é dizer que o desenho artístico é o que se faz na arte e os não artísticos são os realizados nas demais áreas. Rápida mas inútil, pois não esclarecemos o que faz um desenho ser artístico e outro não ser artístico. Observemos que estamos entrando numa discussão sobre funções ou usos do desenho em diferentes esferas da arte. Em primeiro lugar é preciso esclarecer o que é arte. Calma, não vamos escrever um tratado de história da arte, mas apenas dizer que a arte também muda no tempo e no espaço, ou seja, diferentes civilizações ocorreram em cada momento da história e em cada espaço geográfico, produzindo culturas e conhecimentos próprios, logo, produzindo também modos próprios de desenhar. Portanto, o desenho na pré-história é diferente do desenho na Grécia ou no Egito. Cada povo, cada cultura, realiza nas suas manifestações artísticas, os valores correspondentes e inerentes a ele. Este estudo de modelo vivo feito por Any, dá conta das características tradicionais. Esta imagem revela a idéia mais comum que temos do Desenho Artístico, é aquela que ainda resiste, oriunda do ensino acadêmico: a cópia de modelos (vivos ou não) centrados na mimese, ou imitação do que se vê, no intuito de adestrar (ou habilitar, se não gostarem da palavra Skineriana) a mão e o olhar para realizar imagens em superfície que se pareçam com coisas do mundo. Parecer-se com coisa do mundo é necessário, na metodologia acadêmica, pois é por meio desta aparência que o professor (mestre) afere se o aluno (discípulo) consegue reproduzir o visível e o qualifica, para o bem ou para o mal. Vamos observar a imagem a seguir: Esta série de desenhos é de Picasso, mostra uma nova concepção de Desenho Artístico, observamos que as referências ao mundo natural são menores, não há preocupação em imitar, talvez em citar, referenciar-se, mas não de copiar. Se considerarmos que a Modernidade já reconstruiu o olhar e, principalmente, os conceitos transformando a concepção de arte que tínhamos até meados do Século XIX, é possível que o desenho, chamado de artístico, tenha mudado de endereço e o que encontramos hoje na arte é diferente do que encontrávamos ontem. O problema é que boa parte, das escolas de arte, não perceberam isso e continuam investindo num modelo anacrônico que foca antes a habilidade do que a criação ou processo. Pollock com sua gestualidade problematiza não mais a questão da mímesis, mas sim a da criação, da gestualidade e da performance. Levando em conta estas considerações, podemos dizer então que o Desenho Artístico é aquele, cuja função é expressar, portanto, não se presta a imitar ou dar a ver aquilo que conhecemos no mundo. Neste caso, o Desenho Artístico não se preocuparia com os aspectos naturais, anatômicos ou cromáticos daquilo que é mostrado, mas se prestaria a criar sensações e efeitos expressivos a partir disso. Considerando que os aspectos sensíveis (estésicos, sensórios) do mundo natural, amparam ainda, as qualidades plásticas que operamos no construir da arte, ou seja: as qualidades luminosas (luz, sombra e cor), as qualidades espaciais (lugar, dimensão e direção) e as qualidades temporais (cinestesia, dinâmica e movimento), logo, a operação e a organização destas qualidades plásticas é que serão os valores estéticos produtores de sentido ou significação no desenho, em especial, ou na arte visual, em geral. Dito isto, percebemos que a nomenclatura Desenho Artístico não coaduna com o objetivo proposto pela contemporaneidade, neste caso, devemos recorrer aos novos conceitos sobre arte, depois do Modernismo, e trabalhar com a idéia de Plástica, recorrendo às estratégias de expressão em superfícies bidimensionais,neste caso, a expressão gráfica corresponderia à idéia tradicional do desenho, que daria conta deste fazer. É o caso das imagens a seguir de Klee e Miró que fazem do desenho, ou da expressão gráfica, um meio para manifestar seus valores, seus interesses e realizar suas poéticas, sem a expectativa de fazer-nos ver nisso, algo que reconheçamos em relação ao mundo natural. Outra questão que ainda resta é a do Desenho Técnico. Este não tem relação com a observação do mundo natural, tampouco com a expressão em si. Se presta mais à indústria com o fim de orientar a construção de objetos quer sejam peças, ferramentas, móveis, bens e utilitários que podem ser produzidas manual ou industrialmente, por meio de ferramentas ou máquinas. O Desenho Técnico é baseado na construção geométrica, é usado na indústria ou em prestação de serviços como na arquitetura ou no Design para viabilizar a execução de projetos, orientando técnicos sobre os passos ou instâncias para realizar a produção. O aprendizado do Desenho Técnico inclui, por um lado, o domínio de habilidades de observação, reconhecimento e criação de formas, por outro, a adequação à normas e convenções da indústria ou do campo específico da produção (arquitetura ou design). O Desenho Técnico assume a característica de um código de conduta ou de realização amparado em procedimentos técnicos rígidos tanto no que diz respeito à formatação, quanto no que diz respeito à execução. Especialmente no mundo tecnológico, em que as máquinas “pensam”, ou seja, os computadores operam sob orientações precisas de técnicos que programam suas ações para realizar tarefas na execução de seus objetos e objetivos de modo criterioso e fechado. Neste caso, não cabe ensaio e erro, não cabe a experimentação, não cabe o aleatório, mas sim o cumprimento de etapas consistentes e localizadas sem o que os produtos não atingem o fim para o qual foram pensados. Quem sabe, para se opor a este olhar técnico, a grafia de Cristina, abaixo, explicite o pensar opositivo ao racional em que o gesto, a textura, a garatuja, enfim o desenhar sem qualquer compromisso com o olhar do mundo, mas integrada ao compromisso de olhar para dentro do processo poético, do ato que constitui a forma e, deste modo, construir o desenho. Pensar por imagens é uma característica humana e o modo como nos criamos estas imagens condiz com o modo como vivemos e com as expectativas que temos em nossa cultura no tempo e no espaço: às vezes reproduzimos o que vemos, outras, damos asas à imaginação e voamos.

5 comentários:

Raphael Alves disse...

Acredito que aqui caiba aquela frase que o senhor nos disse na primeira aula: "As imagens não estão no mundo. Estão em nós"
Interessante como tudo isso tem ligação com a fotografia... Abraços, professor.

Silva Torres disse...

"Tudo é Desenho". E só podemos desenhar aquilo que conhecemos. Se a Arte é ma expressão/reflexão daquilo que somos, então de que outra forma pode ela ser representada e transmitir sensações que não por imagens? Experimente pensar sem ser por imagens. Transforma-se num animal. A grande caracteristica que diferencia o Homem dos restantes animais irracionais é a consciência, capacidade que permite organizar ideias e pensamentos. Não deixa o post de ser um belo trabalho de investigação, mas acho incorrecto que a arte abstracta possa ser desenho. Concluo com uma frase de um dos maiores artistas portugueses de sempre, Almada Negreiros, em que ele diz: "O que os olhos vêem, só o desenho o sabe"

Isaac Antonio Camargo disse...

Caro Silva Torres, agradeço imensamente seus comentários, concordo com suas colocações no sentido de revelarem uma maneira de perceber a arte visual, entretanto, no que diz respeito à poética, ou seja, ao modo, processo ou estratégias do fazer e do significar, é necessário abrir os horizontes e dar crédito à idéia de que a grafia, por menos figurativa que seja, é também sentido. Grafar o que se vê ou o que se parece com o que se vê é uma escolha do autor, do mesmo modo que grafar algo que não se vê ou se imagina, se cria, ou inventa, também é opção do autor. Significar não é apenas dar conta do mundo visível, mas também do invisível, do indizível e do simbólico. Pensemos também por ai. Muito agradecido. Isaac

Juli Rossi disse...

Olá professor. Também sou professora (mas de Desenho) e me deparo com essa dificuldade do desenho ser tido como expressão e não mais como acadêmico. Dou aula em uma escola pública de artes e as pessoas têm grande preconceito ao desenho de expressão, pois em minha cidade ou os cursos de Desenho vão apenas para o caminho da expressão sem a técnica, ou vão para o desenho acadêmico sem muita expressão. Como é difícil achar um patamar equilibrado!!!
Nós professores de Desenho também temos uma grande dificuldade de associar esse desenho poético e assim a escola de arte toma seu rumo acadêmico, seguindo o que o público em geral denomina ser o "verdadeiro" desenho. E a arte, como está nisso? Será que o público em geral também não está preparado para a arte de "hoje"? Será que a culpa é nossa, dos professores de arte?
Gostaria de alçar mais contemporaneidade às aulas, você pode me ajudar? Tenho lido sobre Edyth Derdyk, acho que ela está me ajudando também...hehehe
Obrigada,
Juli Rossi (julirossi@gmail.com)

Anônimo disse...

E MUITO BOM APRENDER SOBRE O QUE GOSTAMOS,O SEU TEXTO TEM UM CONTEUDO BEM EXPLICATIVO