segunda-feira, 18 de junho de 2007

Uma aproximação com a leitura da obra de arte visual

O que isso quer dizer? Quando alguém se depara com uma Obra de Arte, especialmente uma destas “modernas”, podemos esperar pela pergunta habitual: O que isso quer dizer? Aí sentimos aquele frio na espinha, um arrepio no corpo e uma vontade imensa de começar de novo, numa área mais amena, quem sabe física quântica? É nesse momento que se coloca em dúvida se a opção pelo ensino de arte foi uma boa escolha. Essa perguntinha capciosa apavora tanto os professores quanto os artistas que, nem sempre, conseguem ter na ponta da língua uma resposta pronta e acabada, tampouco satisfazer a curiosidade do interlocutor. Na defensiva, a primeira tentação é contra-atacar, sapecar uma resposta tipo: Arte não significa, ela é! Bela resposta... profunda não? Mas não resolveu nada, o inquisidor ficou na mesma, não aprendeu nada com isso. Para salvar nossa pele, podemos ainda sair pela tangente: Que tal o jogo de ontem? Quem venceu? Brincadeiras à parte, enfrentar a questão, apesar de tudo, ainda é a melhor saída. Como diz Millor Fernandes, “o duro de pegar o touro a unha é que depois não dá para soltar”, para enfrentar com dignidade e galhardia esta pergunta, precisamos ter à mão algum tipo de chave de leitura, um modo, um meio, um tipo de procedimento que facilite a aproximação com a obra de arte, sua abordagem e a apreensão dos sentidos propostos por ela. A princípio precisamos entender que não existem fórmulas mágicas, em se tratando de arte visual, nosso acesso é feito necessariamente pela imagem, logo, esse primeiro acesso é da ordem do perceptivo, não há como ignorar isso. Podemos dizer, nesse caso, que a leitura é mediada pelo olhar, mas devemos esclarecer que esse olhar não é apenas uma decorrência do ato de ver, do enxergar, da pura percepção visual, é muito mais do que isso. É necessário saber olhar, esse é o ponto principal dessa discussão. Mas, afinal, em que consiste esse saber olhar? De imediato podemos dizer que há uma espécie de educação do olhar que começa pela apreensão das qualidades sensíveis do mundo natural, mediante a fisiologia do simples enxergar e chega até ao ordenamento consistente, sistematizado e conseqüente desse olhar especializado. Este olhar implica numa atitude consciente e sistemática diante da Obra de Arte, que se estende além da apreensão sensível, isso requer o ordenamento de condutas e procedimentos que possam nos amparar, orientar e indicar caminhos que resultem na apreensão de valores, idéias e conceitos que se originam na obra de arte. Tudo isso depende de um aprendizado específico. Essa educação do olhar nada mais é o que estamos chamando de leitura e, nesse campo, de leitura estética que é, em última instância um modo de aproximação com as Obras de Arte. Entendemos a arte como a manifestação estética orientada mediante as diferentes poéticas que a humanidade criou ao longo do tempo, expressando seus valores mediante diferentes modalidades expressivas. Essas modalidades, ao serem operadas, produzem Obras de Arte e, cada uma delas se constitui num campo de ação específico, dependente de conceitos, habilidades e domínios próprios, cujos métodos, técnicas, substâncias e materiais são operados por cada uma delas. Podemos aceitar que cada uma opere segundo uma linguagem própria se admitirmos que há, em cada elemento constitutivo daquelas modalidades, essências e valores passíveis de serem constituídos em significado. Mesmo que a Arte Visual seja a mantenedora de um dos meios de registro dos mais antigos da humanidade e ainda, um dos modos de interação e comunicação mais eficientes da sociedade em todas as épocas, ela não é redutível a um sistema padronizado de signos como o verbal. Ao falarmos de pintura, por exemplo, estamos falando de algo simbólico e que remonta à pré-história, portanto, há uma tradição pictórica que ampara o próprio fazer. Portanto, ao falarmos de leitura de Obras de Arte, devemos levar em conta que só podemos analisá-la mediante sua manifestação, por meio de sua presença na relação com quem a lê e no contexto em que se encontra. Outro fator necessário de se considerar é que a arte é uma manifestação volitiva, intencional, logo, é algo que emana de um querer e de um poder fazer que resultará num produto formal gerador de sentido. Modos de presença e leitura da Arte Visual Necessariamente o que nos atrai para a obra de Arte Visual é a sua imagética, suas qualidades perceptivas e plásticas. No entanto, é a aparência de suas imagens que nos dará as pistas sobre ela, seus sentidos, significados e funções. São seus modos de ser e de estar no mundo que fazem com que signifique e faça sentido para nós. Na medida em que descobrimos os meios e modos que elas operam para produzir significação, nós nos transformamos em seus leitores e, simultaneamente, seus co-autores ou reconstrutores. Uma obra de arte só pode ser compreendida se pudermos reconstruir o caminho que ela percorreu até nós. É necessário considerar esta transposição espaço/temporal que ela realizou para sair de uma dada época e local e chegar até outra. A possibilidade de reconstruir seu percurso histórico/geográfico nos situa no tempo e espaço, esta tem sido a tarefa da História da Arte. Compreende-la mediante sua situação histórica já é, sem dúvida, uma boa parte do que podemos considerar enquanto produção de sentido, pois é justamente a possibilidade de rastrear seus objetos, suas manifestações e monumentos, ao longo do tempo e dos lugares, que nos dá a noção de humanidade. Por outro lado, não podemos também perder de vista que a Obra de Arte, para existir, depende de um fazer, da organização de habilidades, instrumentos, meios e materiais para a realização de um produto orientado para o cumprimento de certas funções ou para dar conta de certas necessidades sociais, ainda que simbólicas. Podemos dizer, grosso modo, que a Obra de Arte é uma instância geradora de informação e que essa informação pode ser obtida de sua configuração, enfim, de sua presença. São as obras que contém e mantem os dados capazes de produzir sentido e promover a troca de valores entre pessoas é isso, ao final das contas, que define sua existência. Um primeiro modo de aproximação com essas obras é imediato, ou seja, perceptivo e dependente das qualidades sensíveis do mundo, que nas obras de arte visual são as qualidades plásticas. Estes elementos são, singularmente, referenciados ao mundo natural e capazes de produzir um rápido reconhecimento e imediata interpretação daquilo que estas obras apresentam como cor e forma, por exemplo. Além disso, podem manifestar idéias, valores, interesses, assuntos e temas dos quais as obras venham a se ocupar. Se, por um lado é possível observar as qualidades sensíveis que a obra revela, por outro é possível também identificar as coisas como são no mundo: pessoas, objetos, animais etc., enfim, tudo aquilo que é possível reconhecer pelo simples olhar, pela apreensão sensível é resultado desta relação imediata e estésica, ou seja, de uma Leitura Perceptual. Esta seria então, nossa primeira aproximação cognitiva com a obra, não seja é a única vertente de leitura, mas já é um bom começo. Se é possível uma apreensão imediata, é também possível uma apreensão mediata, ou seja, dependente de relações e intermediações. Se num primeiro momento já obtivemos diversos dados, qualitativos e temáticos, essa nova aproximação parte do pressuposto de que os valores e conceitos que amparam as Obras de Arte não são apenas da ordem do perceptivo, mas de diversas ordens cognitivas. Devemos trabalhar não só com o que é possível constatar do que vemos e observamos, mas também com relações inferenciais e dedutivas. Faz-se, portanto, necessário destacar que, nesse segundo momento, a aproximação depende de uma análise mais acurada, ou seja, do entendimento de que as obras de arte, além de viverem das suas formas e configurações intrínsecas à sua própria índole, vivem também da relação dos elementos que são extrínsecos a ela. Nesse caso, estaremos contrapondo à leitura estésica preliminar, uma segunda leitura pode se iniciar a partir de sua imagem relacionando-a com os demais conhecimentos histórico/artísticos e estéticos que lhe são específicos, ou seja, aqueles que posicionam a Arte na cultura como um meio de apresentar o mundo e de estar no mundo. Assim, as obras, além de serem vistas por suas qualidades e pelas propriedades sensíveis são, ao mesmo tempo, vistas pelo que elas significam no contexto sócio/cultural, é desse modo reconhecemos seus autores, estilos, escolas, movimentos e demais características que as colocam num patamar especial de leitura. As duas imagens que vemos trazem características plásticas e temáticas diferentes. A de cima é de Leonardo da Vinci, a famosa e inconfundível Mona Lisa, de 1503, e a de baixo, de Picasso, Mulher chorando, de 1937. São dois retratos de mulher, produzidos de modos diferentes. O de Leonardo nos mostra uma mulher que posa e olha discreta e diretamente para quem a vê. A aparência geral da imagem tende ao naturalismo, podemos reconhecer ali a figura humana e a paisagem. Os elementos plásticos são organizados de tal modo que nada possa ser confundido, misturado ou complicado e a maneira de fazer a pintura também não nos estranha, já que a imagem se parece com o que estamos habituados a ver. Temos uma mulher que nos olha e se dá a ver. O retrato de Picasso é também uma mulher, segundo o que nos informa o quadro. No entanto a figura que temos não nos deixa saber quem é essa mulher, mas sabemos o ela faz: chorar. E este choro se revela de um modo extremamente sofrido, debulha-se em lágrimas. Mas não são só as lágrimas que se revelam como fragmentos, são suas próprias formas que se fragmentam, e desmancham e contorcem de tal modo que a desfiguram. O sofrimento explícito no modo de pintar é que faz dessa imagem um momento de forte tensão emocional. Comparando as duas podemos dizer que a de Da Vinci é mais contemplativa e a de Picasso nos parece mais interativa na medida em que requer uma participação maior de análise para a compreensão do todo. Se tomarmos o percurso das questões históricas vamos recuperar informações das poéticas que ampararam o Renascimento Italiano e o Cubismo.Vamos descobrir que cada um desses momentos artísticos propunha um modo de compreender e revelar o mundo e, conseqüentemente, um modo de realizar a significação que foi-se modificando com o passar do tempo. Mas essa é uma outra história...

2 comentários:

Raphael Alves disse...

Professor, da minha condição de leigo no assunto, eu diria, humildemente, que a resposta para "O que isso quer dizer?" está em cada um de nós. Lembro de sua primeira aula, na qual nos disse que as imagens existem em nós...
Certa vez, escrevi um texo "Causos, cousas e um comentário sobre Clapton" e uma penca de pessoas me perguntava o que eu quis dizer. Respondi com outro texto (ambos estão no blog) chama "Não me pergunte porque eu também não sei a resposta...". Acho que é isso: nossa "bagagem cultural" é que define o que enxergamos em uma obra, seja escrita, visual, ou até o que sentimos ao ouvir uma música...

delivia disse...

Muito interessante, na verdade sabemos as respostas, só não sabemos, as vezes, transmiti-las para as outras pessoas.