terça-feira, 8 de maio de 2007

Figuração e Abstração: dois lados da mesma moeda?

O advento da Modernidade colocou em discussão diferentes aspectos da arte visual, especialmente a aparência que as Obras de Arte assumiram a partir dali. Esta aparência pode ser analisada por meio de suas qualidades plásticas, ou seja, pelo modo como as substâncias expressivas, usadas na sua criação, são organizadas ou assumem um ou outro aspecto no âmbito de sua constituição. Por meio dessa aparência é possível reconhecer seus autores, estilos, escolas, movimentos e seus conteúdos e ainda, por meio dela é possível reconhecer, pelo menos, duas categorias aceitas e usadas para identificar, grosso modo, dois tipos de manifestação: a Figurativa e a Abstrata. Não é difícil, para o leigo, identificar esses dois tipos, tudo aquilo que se parece ou faz referência ao que conhecemos no mundo natural é o que podemos chamar de figurativo e, ao contrário, tudo o que não se parece com o que podemos reconhecer no mundo natural, é o que podemos chamar de abstrato. Mas será que isto é suficiente para entender uma e outra categoria? Para facilitar o entendimento vamos observar algumas imagens, iniciando por estas duas pinturas. A da esquerda é o Casamento da Virgem de Rafael Sanzio, a da direita é Composição VI de Kandinsky. Assim é mais fácil ainda reconhecer suas diferenças, vendo-as já nos sentimos especialistas. Mas será que isso basta? À Esquerda temos uma obra figurativa típica de um artista do Renascimento italiano, em que estão marcadas, naturalisticamente, as pessoas ali tematizadas e também o espaço ótico definido pela perspectiva de ponto de fuga único. Isso tudo identifica bem aquilo que poderíamos chamar de obra figurativa. À direita temos uma pintura que nos dá as características do abstrato, ou seja, não há referências às coisas que conhecemos no meio em que vivemos, apenas relações cromáticas, gráficas e texturas. Embora estas duas obras sejam suficientes para identificar, numa primeira aproximação, as duas categorias citadas, temos de admitir, ainda, que a questão é mais profunda. Pelo que podemos ver temos alguns problemas, agora as imagens não se parecem muito com aquilo que conhecemos. Embora possamos ver que tratam de pessoas, ambientes e coisas, não se parecem com as pessoas, com as paisagens ou as com as coisas que conhecemos e que fazem parte de nosso convívio. No quadro da esquerda, a paisagem de Eric Heckel, é estranha, as cores e as formas parecem não fazerem parte desse mundo. Ao lado, temos uma obra de Karel Appel, nela vemos figuras que parecem se referir a pessoas e animais, embora sejam mais parecidas com um “alien” fugido de um filme de ficção científica. Abaixo, vemos uma Natureza Morta de Morandi, que também não mostra nada que nos coloque em relação com o cotidiano. Qual é o problema? É necessário entender que a arte tem a possibilidade de parecer-se ou não com as coisas do mundo. Principalmente, a partir do final do século XIX e do início do século XX, os artistas optaram por não revelar imagens do mundo, as pessoas, as paisagens ou as coisas como nós as conhecemos, não de seu interesse de seu trabalho. Estabeleceram uma diferença marcante entre as coisas do mundo e as coisas da Arte e assim tem sido até hoje. Isto não quer dizer que a Arte tem obrigatoriamente que se manifestar contrariando aquilo que conhecemos no mundo, mas que é um dos modos de dizer que mais têm sido utilizado pela expressão artística das últimas décadas. Mas qual é o motivo de construir imagens que se opõem, distorcem, quebram, destroem aquilo que conhecemos? Não era mais “bonito” se as obras fossem cópias do que conhecemos, fossem agradáveis, comportadas? Para os artistas do Renascimento ou do Neoclássico, talvez fosse esse o objetivo, dar conta daquilo que viam no mundo e fazer com que as imagens artísticas refletissem isso, mas não é o caso de grande parte dos artistas que trabalharam a partir do Modernismo. Em troca da mimese do mundo, de sua imitação, os artistas optaram por criar, inventar, romper, reconstruir, refazer, reinterpretar, inclusive negando qualquer referência ao mundo que conhecemos, expressar livremente seus pontos de vista, sem qualquer amarra que os prendesse à tradição, ou trazerem cargas emocionais tão densas que nos incomodassem e mesmo, nos constrangessem. Por isso, há momentos em que essas cargas emocionais são mais densas e tendem a mostrar rupturas, inconformismo, insatisfação e serem até agressivas. Considerando que o autor opera com um modo de expressão, o que eles têm para dizer, dizem carregando na imagem, nas cores, nos traços, nos temas e em outros detalhes que mobilizam nossa atenção, nos envolvem e até mesmo nos chocam. Estes modos de dizer são próprios da Arte Visual e não precisam coincidir com nada do que vemos à nossa volta, não há mal nenhum em trabalharmos com imagens que não se parecem nada com a natureza, isso pode ser mais interessante do que simplesmente imitá-la. Pensem nisso!