domingo, 1 de abril de 2007

É possível definir Arte?

Muitas pessoas como os próprios artistas, os teóricos da arte, estetas e filósofos, escritores, jornalistas e críticos de plantão, vez ou outra sentiram o dever, o poder ou a curiosidade de definir arte, e tentaram fazer isso. Digo tentaram, pois definir é uma responsabilidade muito grande, já que a arte não é uma coisa só, nem eterna, nem definitiva, para conter uma única definição, como requer o termo. Ela se presta a diferentes leituras, portanto, diferentes modos de vê-la e pensa-la em cada tempo e lugar, em cada civilização, em cada sociedade, em cada cultura e mesmo em cada indivíduo que a pense. Resta-nos então a possibilidade de tentar delimitar características que lhe sejam comuns e, por meio delas, identificar o que pode ser e o que não pode ser entendido por arte dentro de um dado contexto cultural. Um primeiro aspecto que deve ser levado em conta é que a arte, enquanto manifestação humana, sempre ocorreu em qualquer tempo ou lugar. Todas as civilizações conhecidas produziram obras de arte e a arte sempre foi um dos elementos de identidade cultural, capaz de distinguir uma sociedade de outra. Uma ocorrência presente e capaz de suscitar as mais diversas apreciações, quer fosse da ordem do pessoal ou do coletivo. Um segundo aspecto é lembrar que as funções que ela exerce em cada sociedade são diferentes de uma para outra. Se para o ser humano pré-histórico a arte serve para evocar vibrações positivas para empreender a caça, para o ser humano contemporâneo serve tanto para decorar um ambiente como para intervir ou transformar outro. Um terceiro aspecto, é que os modos de fazê-la também se distinguiam entres essas sociedades. Na pré-história ocupava as paredes das cavernas, na Idade Média as paredes das igrejas, hoje em dia nem as paredes a suportam. Podemos então dizer que a arte assume em cada momento e em cada lugar, um modo próprio de existência, logo, é impossível esperar que uma simples definição dê conta de toda sua complexidade. Em termos de síntese, acreditamos que a arte seja uma das maneiras que a humanidade tem para se manifestar. Esse seria então o primeiro elemento de significação para seu entendimento. Entretanto, existem manifestações humanas das mais diversas índoles, como podemos então, diferenciar aquelas chamadas artísticas daquelas que não chamamos arte? Um bebê está se manifestando quando chora, provocando sua mãe a lhe fornecer alimento; uma pessoa também se manifesta quando esbraveja de indignação por ter sido ludibriada; entretanto, estas manifestações, embora expressem sentimentos e intenções reais de cada um, assumem um caráter prosaico, trivial, ou seja, não demonstram qualquer reflexão em relação ao próprio ser da arte, não se dispõem a desenvolver ou cumprir nada além de apaziguar a fome ou o ânimo. Portanto, não é este tipo de expressão que nos interessa no contexto da arte. Para facilitar o entendimento do que estamos tentando dizer é só imaginarmos uma situação numa peça teatral ou num filme, por exemplo: A mãe, ao ouvir o choro do filho, corre até ele para verificar sua segurança, ao tomá-lo em seus braços percebe sua fome e o alimenta e embala. Nada mais sublime para significar a atenção e o carinho que a mãe dedica ao filho. Neste caso, a fome não é o fator de significação, mas sim a atenção da mãe para com o filho, ou seja, a maternidade. O outro exemplo, do sujeito que esbraveja por ter sido enganado. Ao fazer isto no mundo natural, poderá causar a indignação das demais pessoas com as quais dialogue, mobilizar a atenção contra aquele que o enganou ou contra si próprio. Ao passo que se transportarmos esta situação para o cinema ou o teatro, teremos uma representação onde alguém é subjugado por outro, demonstrando o assédio moral. Logo, podemos nos constranger pela personagem, por nos sentirmos também vítimas deste tipo de conduta. Assim, distinguimos as manifestações do mundo natural daquelas que ocorrem na arte, pois na arte fazemos uma reflexão, uma reoperação de elementos com vistas a transformar ou explicitar valores e não simples atos. Observando o percurso histórico da humanidade, vimos que o ser humano se relacionou de várias maneiras com o meio em que viveu, como também, com os outros com os quais viveu. Para conhecer estas manifestações, é necessário dirigir o olhar para a arqueologia, para as cavernas, os instrumentos que construía e as pinturas, esculturas e incisões que realizava na rocha, já que não temos outros modos de nos informar a respeito de como este ser agia no seu tempo e espaço. Uma das primeiras coisas que devemos entender, é que não era possível distinguir entre as diferentes manifestações humanas aquelas que pudessem ser chamadas de arte daquelas que pudessem ser chamadas de pragmáticas ou técnicas. Caçar, coletar e se apropriar daquilo que estava à sua volta, era um modo de sobreviver e dialogar com o entorno. O caminho da humanidade se desenvolveu na medida em que o ser humano foi se apropriando e transformando aquilo que era possível a ele transformar. Suas necessidades se confundiam com os anseios, com o sonho, com as ilusões e com a imaginação. Provavelmente, aquele ser humano, não sabia muito bem a diferença entre a imaginação e a realidade. Estas duas instâncias se confundiam a tal ponto que criar imagens para se apropriar da realidade já instaurava um ritual, assumia um sentido mágico e propiciatório. Esta é uma das hipóteses mais aceitas sobre as imagens criadas na pré-história. Dominar o bisão fixando-o na parede da caverna era um passo importante para o domínio do animal no campo de caça, portanto, a manifestação artística era também parte do ato pragmático da caça e, ao mesmo tempo, mágico, um rito, ligado à sua sobrevivência. Arte ou magia? Qual seria a função deste labor? Em princípio podemos dizer que esta função se refere a estes dois propósitos, é magia e também é arte na medida em que para realizar a magia opera elementos típicos da criação, opera o que chamamos de substâncias expressivas e as ordena segundo critérios que os distinguem dos atos espontâneos e superficiais como nos referimos ao choro ou a indignação. Portanto, o elemento que diferencia qualquer manifestação de uma manifestação artística é o Estético. Bem, vale a pena tomar a Estética como referência, não sem antes explica-la. Estética é o substantivo feminino que vem do grego Aisthetikós, cujo sentido se refere a sensível, sensitivo, sensação. Alexander Gotlieb Baumgarten (1714-1762), pensador alemão, dedica parte de seus estudos às análises das faculdades sensitiva humanas e sua relação com a apreciação artística e batiza esse campo cognitivo de Estética. Logo, Estética nada mais é do que uma disciplina cujo objeto é a Arte e a apreensão do conhecimento sensível. Nada mau para poucas linhas. Podemos concluir então que a Arte é uma manifestação estética e humana, portanto, poderíamos dizer, sem falsa modéstia, que a Arte é a manifestação estética da humanidade. Embora essa seja uma conceituação um tanto tautológica, nos ajudará a entender o conceito de Arte.