domingo, 8 de abril de 2007

Belas Artes, Artes Plásticas, Arte Visual.

Uma mesma modalidade expressiva pode comportar diferentes poéticas, diferentes modos de fazer. A questão dos nomes que se referem, atualmente, à Arte Visual, não trata apenas de nomenclatura, mas de concepção. É o caso da Arte Visual, antes Belas Artes e Artes Plásticas. O termo Belas Artes se refere ao modelo de ensino acadêmico que vigorou no século XIX, por sua vez, baseado no modelo clássico de origem greco/romano que inspirou o surgimento de diversas Academias de Arte na Itália, em outros países da Europa e, depois, na França de Napoleão que marca a origem desse ensino no Brasil. Antes, o ensino de arte era realizado nas Guildas, antigas corporações de artesãos, oriundas da Idade Média, que tinham por meta organizar os interesses de seus artífices quanto ao domínio e qualificação do seu fazer e valoração dos trabalhos que realizavam. Depois das Guildas, as primeiras academias de ensino artístico surgiram no Renascimento na Itália. A primeira delas foi a Accademia di Disegno de Giogio Vasari, em 1562 em Florença; depois a Academia dos Carracci, Annibale, Agostino e Ludovico, em 1585, em Bolonha e a Accademia di San Lucca, de Frederico Zuccari, em 1593, em Roma. Para entendê-las, é preciso falar sobre seu processo de ensino: a pratica pedagógica dessas academias era baseada em um sistema rígido de ensino que tomava como base a cópia de modelos em gesso de esculturas greco-romanas, o desenvolvimento de estampas e ornatos, além de estudos de anatomia e modelo vivo, desenho geométrico e perspectiva, além de filosofia e história. A meta desse ensino era, de um lado, a aproximação com os mestres clássicos do Renascimento italiano como Rafael, Michelangelo e Botticelli, por exemplo, por outro uma tentativa de criar um aparato técnico intelectual que tirasse a arte do contexto do mero artesanato. Em 1664, em Paris, é criada a Académie de Peintre et de Sculpture que tenta romper com o modelo de ensino anterior. Nela, a associação livre, dava a cada um dos participantes iguais direitos e não se submetiam a um mestre em especial, como era o caso das academias tradicionais. Com a ascensão de Napoleão ao poder, esta academia passa a ser uma escola de Arte oficial estatal, muda suas diretrizes e o nome de Academie Royale des Beux-Arts para École de Beux-Arts de Paris. Dessa escola é que vêm os professores da Missão Artística Francesa, trazida em 1816 por D.João VI, cujo trabalho culmina na criação da Academia Imperial de Belas-Artes, em 1826, no Rio de Janeiro, depois chamada de Escola Nacional de Belas-Artes a partir da proclamação da república. Essa escola foi a matriz das demais escolas de Belas Artes que surgiram por todo o país propagando aquele modelo extemporâneo de ensino. Hoje, o prédio daquela escola, no Rio de Janeiro, abriga o Museu Nacional de Belas Artes. O belo foi sempre um valor artístico de referência para a arte de tradição clássica, desde os gregos, cujo valor era antes da ordem do ético tanto quanto o bem. O bem, enquanto valor moral tornado valor para a arte, encontra sua reciprocidade no belo, tomado como valor idealizado, portanto, de beleza, seguido por outros termos valorativos como o bonito, o agradável, o harmônico, o gracioso etc. Portanto, falar em Belas Artes, faz-nos falar em tradição clássica, em academia e recuperar valores que, nem sempre, fazem o perfil da arte na contemporaneidade, diríamos ser um termo anacrônico. Quanto ao conceito de Artes Plásticas, vamos começar pelo termo plástico que tem origem no plastikós grego, cujo sentido se refere aos procedimentos de modelagem da argila. Podemos aceitar, então, que o termo plástico tem por propriedade se referir a tudo que dependa de manipulação, da ação manual exercida sobre um dado material que seja capaz de transformá-lo em substância expressiva dando-lhe forma e sentido. Logo, todos os materiais que suportem intervenção a ponto de assumirem novas formas e relações podem ser chamados plásticos. Podemos compreender sob o termo Artes Plásticas, os modos de expressão que tenham como base de trabalho a superfície (ambiente bidimensional) e o volume (ambiente tridimensional), sendo que na superfície podemos falar em expressão gráfica incluindo o desenho, gravura e de expressão pictórica, a pintura; quanto ao volume, podemos falar das poéticas que operam no espaço circundante por meio dos volumes, como a modelagem a escultura, montagens ou assemblages. Um aspecto importante para o entendimento do que é Plástico, é compreender que o exercício pragmático da criação depende também do domínio de habilidades motoras para o manuseio de certos instrumentos e ferramentas na relação com os materiais e suportes. Nos trabalhos em superfície, como por exemplo, no desenho, há que se dominar o uso do lápis ou da caneta, na pintura, há que se dominar o uso dos pincéis e das tintas; na gravura dos instrumentos de corte e incisão para gravar matrizes em madeira (xilogravura), no metal (gravura em metal) ou na pedra (litogravura), além da necessidade de conhecer os meios de impressão. Nos trabalhos em volume há que se dominar habilidades, técnicas, instrumentos e ferramentas para a modelagem e o corte na escultura propriamente dita. Cada um dos modos de fazer implica em técnicas, habilidades e concepções diferentes umas das outras, segundo cada uma das poéticas em que a expressão se dará. É comum a utilização do plural Artes Plásticas, embora o singular Arte Plástica fosse mais adequado segundo a linha de raciocínio que assumimos desde o início. Mas, por força do hábito, vamos manter a grafia como Artes Plásticas. Se pensarmos que chamamos de Artes Plásticas às obras que são produzidas no domínio das habilidades motoras, materiais e instrumentais como vamos chamar aquelas que se faz sob o domínio de aparelhos que não exercem uma ação direta sobre a matéria e não se utiliza de instrumentos ou ferramentas específicas? Quando surge no campo da Arte outros modos de fazer que não aqueles tradicionais é necessário também encontrar um outro modo de nomeá-los, caso contrário, fica difícil entender sua procedência e suas diferenças constitutivas. O primeiro desses modos a surgir foi a fotografia. A fotografia, embora tivesse alguma semelhança com o desenho, a gravura ou pintura, não é nenhuma delas. A fotografia é produto de um aparelho ótico cuja imagem é registrada num suporte químico pela luz e depois processada quimicamente, passando a existir num suporte plano como num negativo, num diapositivo ou numa cópia. Sabemos que os desenhos, gravuras ou pinturas são produtos das habilidades manuais dos artistas que operam diretamente sobre os materiais cujos registros são os mesmos materiais em que ele inscreve diretamente as imagens que cria, como no papel, na tela ou na madeira. A fotografia, por sua vez, não depende da ação manual do produtor, consequentemente, não apresenta o estilo ou o modo de fazer desse produtor, nem as marcas de suas pinceladas, traços ou gestos. A fotografia é impessoal. As marcas que aparecem na superfície fotográfica são decorrentes das lentes e dos produtos químicos que a constituem e não do autor que a constituiu. Logo, vamos perceber que o termo Artes Plásticas já não dá conta de obras que eram produzidas por meio de aparelhos, assim, passamos a usar um conceito mais abrangente, o de Arte Visual. A idéia de Arte Visual passa a incorporar diferentes poéticas, tanto aquelas que pertenciam ao contexto das Artes Plásticas, quanto as novas imagens oriundas dos aparelhos como os fotográficos, os cinematográficos e suas decorrências eletro-eletrônicas como o vídeo e os sistemas digitais de produção de imagens fixas ou em movimento. O conceito de Arte Visual pode abarcar o conceito de Arte Plástica, no entanto, o conceito de Arte Plástica, não pode abarcar o de Arte Visual.