sábado, 19 de abril de 2014

Desenho Artístico ou Técnico: novas reflexões...

Embora o Desenho esteja presente nas representações imagéticas da humanidade há milhares de anos, nem sempre recebe a atenção necessária para entendermos um pouco mais a seu respeito.




Refletindo à respeito do Desenho vamos perceber que ele atua tanto no contexto expressivo quanto técnico, mas como poderíamos conceitua-lo a partir da dicotomia arte e técnica?




Num primeiro momento, pode-se dizer que é a grafia pura e simples. Entretanto, se tomarmos como referência as muitas maneiras de utilizá-los é possível interpreta-los segundo vários pontos de vista, revelando assim seus diferentes usos e funções na arte ou na tecnologia.









As figuras que vemos aqui, a de cima é da caverna de Lascaux, França e a de baixo da caverna de Chavenet, também na França. Ambas dão conta de animais com os quais aqueles seres humanos conviviam e dos quais dependiam para sua sobrevivência. Em cima, vemos um touro, em baixo, dois rinocerontes em confronto. As imagens foram realizadas à traço, graficamente, ou seja, desenhadas. Mesmo assim, dá conta da aparência do animal. Mesmo que os traços, e a variação tonal (claro-escuro) não seja naturalística por excelência é possível apreender a imagem e entender sobre o que elas falam.







Pensando assim, é possível entender melhor o conceito original do termo “desenho”. Em latim e depois no italiano o termo disegno se refere ao ato de: designar, indicar, marcar e, até mesmo, grafar. Derivando depois em dessein no francês, diseño no espanhol, design em inglês, se torna desenho em português. É possível concluir então que desenhar compreende o ato de grafar/gravar algo quer seja projeto ou produto.


Mas, a primeira coisa sobre a qual devemos refletir é que o desenho é uma construção cultural e varia de acordo com a civilização que o produz, portanto, o modo de praticar ou produzir desenhos varia de aparência e de função em cada época e em cada lugar em que são realizados.



Tradicionalmente pode-se dizer que o desenho é um modo de construir sínteses (ou abstrações) sobre o que vemos ou imaginamos. A principal característica do desenho é seu aspecto gráfico, ao contrário das pinturas que revelam os aspectos cromáticos e nuances tonais, portanto, o traço, a linha, o contorno é uma característica intrínseca ao desenho, resultante da distinção entre as diferentes matérias, superfícies, nuances, objetos, texturas, e tantas outras coisas que queremos distinguir para mostrar numa imagem.
Neste sentido, o desenho pode ser entendido como a diferença visual entre o que é necessário reter e o que é descartável para amparar a informação, como diziam os Gestaltistas, uma distinção entre figura e fundo ou, pode-se dizer: uma distinção abstraída e sintetizada entre forma e contra-forma.



Observe três imagens de estudos de uma paisagem, realizadas por G. Banns, nelas vamos perceber que o artista separa, gradualmente, os elementos que vão ser destacados por meio das variações gráficas, construindo diferentes densidades tonais geradas graficamete e, ao final, destacando alguns elementos do todo na composição geral. Neste caso, os destaques instituem as figuras e as grafias que amparam aquilo que é destacado, constitui o fundo, fazendo significar uma paisagem.





Veja abaixo os trabalhos de Maurits C. Escher, nos quais problematiza a questão figura-fundo. O que é figura e o que é fundo? Ele não responde a esta pergunta, mas estabelece uma dicotomia entre estas duas entidades perceptivas que a Gestalt já havia identificado, portanto, somos nós humanos que destacamos o que queremos dar a ver ou escondemos aquilo que não nos interessa ver, logo, distinguimos e construímos as imagens do modo como queremos que elas signifiquem.









Mas, nem sempre estamos diante de uma diferença tão óbvia assim, há situações que implicam em distinguir nuances tão próximas que apenas os traços não resolvem esta questão. Foi quanto Da Vinci percebeu a necessidade do uso do “sfumatto” que produziria a sensação de variação gradual destas nuances, desenvolvendo estudos sobre a gradação tonal do “chiaro oscuro”. Esta técnica ou estratégia, ao diluir e embaçar o traço ou grafia, cria o efeito de massa, volume e densidade, adicionando ao desenho uma característica moduladora, ou melhor, modeladora se assim quisemos. Portanto, além do traço, temos a graduação ou gradação tonal como um recurso plástico incorporado ao desenho e, depois, inerente a ele.




Observe o desenho de Alanna Spence, de uma caveira bovina.






Podemos dizer que, para os artistas do Renascimento, quando o desenho, além de sua condição expressiva passou a assumir seu caráter técnico e cumprir funções pragmáticas, como servir ao ensaio, ao estudo, às anotações, ilustrações, representações e, principalmente, às projeções. Neste sentido de dedicava ao o que e como fazer.
Processos discursivos de sua poética como o que reter ou ignorar e como resolver questões de ordem técnica ou plástica, eram demonstrados por meio dos esboços ou croquis que amparavam o percurso do fazer que se realizariam em uma outra obra mais requintada ou elaborada como uma pintura em afresco, por exemplo. Veja o caso de Michelangelo, num estudo usado na pintura da Capela Sistina, ou ainda, abaixo, um estudo de Da Vinci para a Santa Ceia.











De certo modo, os diferentes modos de pensar e produzir desenhos decorrem dos usos e costumes aos quais estamos submetidos e pertencentes à uma dada cultura. Ao longo da história o ser humano usou e abusou de sua liberdade e de seu poder de síntese. Significar, por meio do desenho, era apreender, aprender, reter e também racionalizar a informação, um meio de conhecer e garantir o conhecimento sobre aquilo que informava.
Ao mesmo tempo também era um modo de significar o que procurava dar conta, não apenas dos aspectos visíveis, mas também dos aspectos simbólicos, míticos ou imaginários, amparado nas suas crenças e necessidades. Por exemplo: os egípcios, na antiguidade, ligavam as imagens ao extraterreno, era um modo de contatarem o divino e com ele se relacionar, um modo simbólico de dizer semelhante a uma escrita.







A representação, por sua vez, deriva da análise visível do contexto, de onde surge o Desenho de Observação. Este processo parte da imitação daquilo que se vê no mundo transferindo estas informações para uma superfície ou base material por meio das habilidades cognitivas e manuais do desenhista. A construção de imagens semelhantes, miméticas, pretende ser uma síntese analógica que corresponda, no todo ou em parte, àquilo que se vê, portanto preserva a aparência, os ângulos, pontos de vista, orientação linear (perspectiva), proporção e direção. Logo, sua produção depende de algo visível. No contexto acadêmico, o Desenho de Observação usava como referência, modelos em gesso reproduzidos de partes de esculturas e ornamentos de origem grega e romanas, mais tarde passou a utilizar modelos vivos e também objetos do cotidiano como garrafas, frutas e utensílios e depois sólidos geométricos, assumindo aspectos mais atuais.
Em suma, o Desenho de Observação é um processo de aprendizagem cujo objetivo é preparar e qualificar o desenhista –ator do processo- para o exercício do desenho como uma atividade específica e, originariamente, à mão livre (sem instrumentos como réguas, esquadros e compassos).



Os trabalhos do americano Matt Elder é um exemplo deste tipo de desenho.







Outra estratégia do Desenho de Observação era o Desenho do Natural, ou seja, a imersão do aluno no meio, seja urbano ou, de preferência, a própria natureza com sua diversidade de luzes, sombras, cores, planos, linhas e acidentes. A finalidade, ou função, deste tipo de desenho, é o de proporcionar ao observador, a capacidade de apreender o visível, respeitando as características inerentes ao que vê, como meio de adquirir e demonstrar habilidades psicomotoras. Ou seja, uma metodologia para aprendizado baseada no conhecimento, reconhecimento, significação e ressignificação do mundo visível.



A paisagem de Willy Mauren dá esta sensação.



O Desenho de Memória, seria um passo além e resultante do Desenho de Observação, ou seja, embora possa se referir ao mundo, não tem a obrigação de imitá-lo, mas sim de reconstruí-lo, por meio de estratégias do imaginário, logo, as imagens que ele mostra podem ou não existir ou ter existido mas sua função é figurar, ou seja, parecer com algo que se vê no mundo.
A principal característica do desenho de memória é possibilitar o domínio de habilidades psicomotoras por meio da capacidade de reter e reproduzir os aspectos plásticos apreendidos do mundo natural, criando o efeito de luz e sombra, perspectiva, direções etc. Deve tornar plausível ao olhar de quem vê aquilo que o criador idealiza.
Deve, por um lado, indicar que o desenhista conhece as características e qualidades sensíveis do mundo natural e, por outro indicar que é possível criar situações que não ocorreram ou que não são passíveis de ocorrer no mundo, mas possíveis de existir na imagem, ou seja, na imaginação. Isto quer demonstra a aplicação de uma habilidade, ou seja, se sabemos copiar, podemos inventar. Mas observe que o inventar não se afasta do que conhecemos ou do que vemos no contexto natural, portanto, ainda há uma certa aproximação com o visível e, neste sentido, se instaura o que chamamos de Desenho de Projeto ou Projetivo que compreende, além das habilidades de observação, habilidades psicomotoras e técnicas, baseando-se em regras, normas e sistemas de representação e reprodução como o Desenho Técnico, Desenho Geométrico e outras denominações semelhantes que se dedicam aos processos projetivos da construção civil, à indústria e do Design.







Dito tudo isso, onde fica o Desenho Artístico?



Como vimos até então, o desenho é um processo de apreensão e representação gráfica do visível, portanto, pode ser realizado segundo duas vertentes distintas: uma que se dedica ao processo expressivo em si e outra que se dedica aos aspectos técnicos e funcionais de suas aplicações pragmáticas. Pode-se dizer que o Desenho Artístico, é o desenho dedicado prioritariamente à expressão estética e não às representações técnicas.
Tanto um quanto outro dependem de aprendizagem, seja estética ou técnica, embora seus fins e aplicações sejam diferentes.



O Desenho Artístico é mais tradicional por conta de ter surgido da observação e representação livre do mundo natural. Antes mesmo do ser humano perceber que poderia projetar, prever ações por meio da designação, design. Como distinguir o desenho, em geral, do desenho artístico, em especial?
Uma resposta direta é dizer que o Desenho Artístico é o que se faz na Arte e os não artísticos são os realizados nas demais áreas. Resposta rápida mas inútil, pois não esclarece o que define um desenho como artístico e outro como não artístico. Observemos que estamos entrando numa discussão sobre funções ou usos do desenho em diferentes esferas da criação.
Em primeiro lugar é preciso esclarecer o que é Arte. Calma, não vamos escrever um tratado de história da arte, mas apenas dizer que a arte também muda no tempo e no espaço, ou seja, as diferentes civilizações que ocorreram em cada momento da história e em cada espaço geográfico, produziram culturas e conhecimentos próprios, logo, também desenvolveram modos próprios de representar o visível, de desenhar.


Portanto, o desenho realizado na pré-história é diferente do desenho da Grécia ou no Egito, tanto em relação aos processos, temas e finalidades. Cada povo, cada cultura, realiza nas suas manifestações sejam artísticas ou não, tomando por referência os valores vigentes no seu contexto social. Ao classificarmos um tipo de desenho como Artístico, estamos delimitando seu processo criativo, suas técnicas, seus materiais, seu uso e função.
Tradicionalmente o Desenho Artístico foi instaurado dentro das Academias de Arte originárias do Renascimento, depois implantado nas Academias de Belas Artes e, mais tarde, no ensino de Arte em geral.



Este estudo de modelo vivo feito por Any, dá conta das características tradicionais:




Esta imagem revela a ideia mais comum do Desenho Artístico, é aquela que ainda resiste, oriunda do ensino acadêmico: a cópia de modelos (vivos ou não) centrados na mimese, ou imitação do que se vê, no intuito de habilitar o desenhista/artista mediante o treinamento do olhar, da mente e da mão para realizar imagens em superfície que se pareçam com coisas do mundo.
Parecer-se com coisa do mundo é necessário, na metodologia Acadêmica para o aprendizado do desenho pois, é por meio da aferição da capacidade perceptiva e reprodutiva do mundo natural que centra esta formação, é por meio da aferição desta aparência que o professor (mestre) verifica se o aluno (discípulo) desenvolve as habilidades específicas para expressar-se por meio desta técnica.



Entretanto, o advento da Arte Moderna, que ocorreu entre o final do século XIX e início do século XX, mudou radicalmente o modo de conceber e produzir desenhos no contexto da Arte, por um lado, desloca a criação da imitação para a invenção e por outro, o domínio da técnica representativa para a experimentação. A livre criação passa a ser o objeto da criação e não a reprodução do visível. Neste caso passam a ter valor expressivo a plasticidade dos traços, as orientações visuais, a textura, a materialidade, a gestualidade e outros valores menos objetivos e mais subjetivos.




Esta série de desenhos é de Picasso, e mostram esta nova concepção de Desenho Artístico, observamos que as referências ao mundo natural são menores, não há preocupação em imitar, mas quem sabe, em citar o mundo, faz referência mas não copia.



Se considerarmos que a Modernidade reconstruiu o olhar e, principalmente, transformou os conceitos que tínhamos de Aerte até meados do Século XIX, é plausível que desenho, chamado de Artístico, também tenha assumido estas mudanças e o que encontramos hoje é diferente do que encontrávamos ontem. O problema é que boa parte das escolas de arte não perceberam estas mudanças e continuam investindo num modelo anacrônico que foca antes a habilidade manual do que o processo criativo.



Um dos artistas que mudou radicalmente a criação em Arte foi Jackson Pollock, seu processo criativo valoriza a gestualidade e problematiza não mais a questão da mímesis, mas sim a gestualidade e a performance corporal na criação artística, logo o aprendizado imitativo não é uma referência essencial para a produção do artista.







Levando em conta estas considerações, principalmente as tendências instauradas pelo Modernismo na Arte, podemos dizer que o Desenho Artístico é aquele, cuja função é a expressão, portanto, não se presta a imitar ou dar a ver aquilo que conhecemos no mundo. Neste caso, o Desenho Artístico não se preocupa necessariamente com os aspectos naturais, anatômicos ou cromáticos daquilo que é mostrado, mas se presta a criar sensações e efeitos expressivos a partir disso.
Considera os aspectos sensíveis (estésicos, sensórios) operadas a partir do mundo natural como as qualidades luminosas (luz, sombra e cor), as qualidades espaciais (lugar, dimensão e direção) e as qualidades temporais (cinestesia, dinâmica e movimento), como meios de amparar a criação, logo, a operação e a organização destas qualidades plásticas é que intaurarão os valores estéticos produtores de sentido ou significação no desenho, em especial, ou na arte visual e não a mímese.
Dito isto, percebemos que a nomenclatura Desenho Artístico não coaduna com o objetivo proposto pelos processos de ensino/aprendizagem contemporãneos, neste caso, devemos recorrer aos novos conceitos sobre arte, depois do Modernismo, e trabalhar com a ideia de Plástica, recorrendo às estratégias de expressão em superfícies bidimensionais, neste caso, a expressão gráfica corresponderia à ideia tradicional do desenho e dá conta deste fazer. É o caso das imagens a seguir de Klee e Miró que fazem do desenho, ou da expressão gráfica, um meio para manifestar seus valores, seus interesses e realizar suas poéticas, sem a expectativa de fazer-nos ver nisso, algo que reconheçamos em relação ao mundo natural.







Outra questão que ainda resta é a do Desenho Técnico. Este não tem relação com a observação do mundo natural, tampouco com a expressão em si, mas com a projeção, o projeto e, neste caso, atende melhor à indústria com o fim de orientar a construção de objetos quer sejam peças, ferramentas, móveis, bens e utensílios que podem ser produzidos em série por meio de processos manuais ou industriais, por meio de ferramentas ou máquinas.
O Desenho Técnico é baseado na construção geométrica ou Desenho Geométrico, é usado em projetos destinados à indústria ou em prestação de serviços como na arquitetura ou no Design para viabilizar a execução, orientando técnicos sobre os passos ou instâncias para a realização dos produtos. O aprendizado do Desenho Técnico inclui, por um lado, o domínio de habilidades de observação, reconhecimento e criação de formas, por outro, a adequação à normas e convenções da indústria ou do campo específico da produção (arquitetura ou design).







O Desenho Técnico assume a característica de um código de conduta ou de realização amparado em procedimentos técnicos rígidos tanto no que diz respeito à formatação, quanto no que diz respeito à execução. Especialmente no mundo tecnológico, em que as máquinas “pensam”, ou seja, os computadores operam sob orientações precisas de técnicos que programam suas ações para realizar tarefas na execução de seus objetos e objetivos de modo criterioso e fechado. Neste caso, não cabe ensaio e erro, não cabe a experimentação, não cabe o aleatório, mas sim o cumprimento de etapas consistentes e localizadas sem o que os produtos não atingem o fim para o qual foram pensados.


Quem sabe, para se opor a este olhar técnico, a grafia de Cristina, abaixo, explicite o pensar opositivo ao racional em que o gesto, a textura, a garatuja, enfim o desenhar sem qualquer compromisso com o olhar do mundo, mas integrada ao compromisso de olhar para dentro do processo poético, do ato que constitui a forma e, deste modo, construir o desenho.







Pensar por imagens é uma característica humana e o modo como nós criamos estas imagens condiz com o modo como vivemos e com as expectativas que temos em nossa cultura no tempo e no espaço: às vezes reproduzimos o que vemos, outras, damos asas à imaginação e voamos...

domingo, 1 de dezembro de 2013

Fotografia: tratar ou não, eis a questão...




Tratar uma foto significa interferir em algum estágio do processo para melhorar suas qualidades ou características com a finalidade de adequá-las ao cumprimento de suas finalidades ou funções seja no contexto criativo, documental ou comercial. Embora alguns pensem que as imagens fotográficas já nascem prontas e não devam ser tratadas, se olharmos para a história veremos que isto sempre ocorreu, a questão maior é definir que tipo de informação as fotografias revelam e se as intervenções que elas sofrem comprometem ou não a função social para a qual são produzidas.


A brincadeira da caligrafitti.com com o programa de tratamento de imagem e Madona exemplifica bem o que se pensa ao imaginar uma imagem tratada:











Neste sentido tratar uma imagem não é necessariamente transformá-la a ponto de alterá-la, o que é plenamente possível levando em conta a tecnologia digital que temos à disposição no contexto contemporâneo, entretanto, o que motiva o tratamento de uma imagem não é a capacidade de transformá-la, mas sim a possibilidade de melhora-la e ajusta-la ao seu uso ou finalidade.





É bom deixar claro que, no contexto da fotografia documental, jornalística, antropológica ou etnográfica, as alterações não devem mudar o seu significado. Não podem alterar ou adulterar as informações que ela contém como registro de origem, é inconcebível mudar os fatos. O compromisso ético de garantir a manutenção e preservação dos dados originais em relação à tomada da imagem é uma das responsabilidades sociais que o fotógrafo documentarista assume diante da história, portanto, deve se esforçar o máximo para obter a melhor imagem no instante do ato fotográfico e não depois.


A foto de Robert Capa, um dos mais conhecidos fotógrafos de guerras do século XX, mostra isso, inclusive a ampliação mostra a totalidade do negativo, na tentativa de dar mais credibilidade à informação.








Entretanto, quando a fotografia é produzida no campo da Arte, da expressão ou da publicidade, a responsabilidade social não diz respeito à preservação do ato fotográfico em si, mas sim ao destino que se dá a fotografia. No campo da Arte o compromisso é com o sistema de arte e com a expressão. No campo da fotografia dita social, o compromisso é estabelecido entre o contratante e o prestador de serviço, portanto, regido por regras do mercado e do comércio e não pelo compromisso ético e moral, ideológico ou político.




A foto de David la Chapelle, "Burning down the house" com Alexander Mcqueen e Isabela Blow de 1996, mostra a liberdade e imaginação do fotógrafo e, obvio, a produção editorial, a locação, figurinos e o tratamento digital, entre outros...


As fotografias vinculadas à arte ou à área comercial como na publicidade e propaganda, são normalmente tratadas e, em alguns casos, manipuladas e transformadas para obterem o máximo de efeito possível em relação aos seus leitores e apreciadores. É admissível até mesmo que sejam modificadas incluindo e excluindo partes, reforçar, destacar, reduzir ou obliterar dados para que possam cumprir melhor sua função simbólica, comunicativa e comercial. Nem sempre uma boa imagem nasce pronta, dependemos de um refinamento do olhar pois sua qualidade depende das habilidades e da capacidade técnica e estética do criador, caso contrário, o efeito parecerá falso e isso é péssimo em qualquer circunstância.


Com exemplo mostro duas imagens: a primeira que tomei, sem tratamento e a que refiz, via Picasa, tomando por referência a possibilidade expressiva/estética e comunicativa que a imagem me possibilitava, comparem e julguem:









Como vemos há duas situações extremamente diferentes que, embora opostas, convivem num mesmo contexto social: de um lado, as imagens cujos registros devem ser fidedignos e preservados como foram obtidos e, de outro, aquelas que podem sofrer transformações para atingir sua finalidade. Nos dois casos as visões são muito específicas e é essencial que tanto o profissional do registro documental, quanto o da criação, tenham consciência de suas responsabilidades e estejam preparados para realizar suas imagens dentro do segmento social no qual se enquadram com competência profissional, seja ele documental ou criativo.






Hoje em dia, tanto as câmeras quanto os computadores possuem recursos para tratamento de imagem. A simples escolha de uma extensão ou sistema de arquivo para armazenar as imagens na câmera fotográfica já define, de antemão, o nível de intervenção na imagem. Com exceção do sistema RAW (cru) de arquivo, onde é possível manter os dados íntegros como na tomada, os demais sistemas como JPEG, GIF,PNG, TIFF entre outros, empregam meios de armazenamento e compactação que não permitem voltar atrás e obter os dados originais como pareciam no mundo natural no momento da tomada.





O tratamento das imagens também ocorre no computador por meio de programas aplicativos que permitem edição/editoração de imagens. Há vários deles disponíveis atualmente.No contexto comercial o mais famoso é o Adobe Photoshop, um programa de editoração e tratamento de imagens de alta performance para profissionais de imagem. Semelhante a ele, mas de livre acesso, é o GIMP disponível para o público sem nenhum custo.





Outro aplicativo na moda entre os usuários de sistemas de telefonia móvel é o Instagram, um programa de tratamento instantâneo de imagens oferecido gratuitamente para os proprietários de alguns celulares ou usuários de algumas plataformas, sistemas operacionais ou rede sociais. Este sistema possibilita que as imagens tomadas pela câmera de um aparelho celular possam ser maquiadas imediatamente e remetidas aos demais usuários de redes. Na realidade não são programas de edição, apenas modelam a imagem segundo escolhas num conjunto de “tratamentos” pré-definidos no sistema criando a ilusão de eficiência quando, na verdade, o que se faz é a aplicação de uma manipulação previamente elaborada pelo criador do programa.





O mais acessível e eficiente em termos de aplicação e tratamento é o Picasa disponibilizado pelo Google. É livre e acessível a qualquer usuário. É bem eficiente no que diz respeito à interatividade, usabilidade e tratamento rápido, embora seja um programa adequado para computadores e não para tablets e móbiles é uma opção viável para não profissionais em tratamento de imagem.


Rosa:













Como se vê, não há fotografia sem tratamento, a questão é: quando tratar, quanto tratar, o que tratar e como tratar, pois não temos a opção de não interferir ou não tratá-las pois, muitas vezes, as coisas não são o que parecem ser...


Esta é a versão original da foto que coloquei acima como Rosa, na realidade foi uma imagem tomada de um processo culinário, ou seja, da feitura de um caldo de legumes com beterrabas, a ideia de simular uma rosa foi determinada pela aparência e uma ajudinha do recorte e tratamento de cor e contraste.
















Mais uma foto: a da abertura deste artigo, na sua versão original, acho que a versão publicada ficou melhor, não?




Aqui está a foto que abre este artigo.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

ARTE VISUAL e ANATOMIA



As relações do ser humano com a anatomia, fosse humana ou não, sempre foi uma questão presente na expressão artística desde seus primeiros momentos e definiu boa parte do percurso das imagens na Arte. Reproduzir a aparência das coisas foi, para a Arte Visual, um ponto de apoio importante para o processo de comunicação e informação que se consolidou na História da Arte até, praticamente, o Modernismo.


Em alguns momentos da história, mostrar uma imagem que se parecesse com a realidade fazia sentido para os seres humanos e isto se tornou, por muito tempo, uma questão de suma importância para a arte e para a sociedade. Representar nada mais é do que colocar algo no lugar de alguma coisa ausente. É um modo de evocar, referenciar-se àquilo que não está ali para fazê-lo presente no discurso, logo, representações mentais, conceituais e visuais são modos de construir significados. Neste sentido, ater-se à forma, à aparência das coisas é uma maneira de manter-se fiel à existência das mesmas e trazê-las para o discurso de uma maneira convincente, logo, representar algo de maneira semelhante ao que se parece é uma boa estratégia discursiva.


Obviamente, nem sempre as imagens fazem justiça à natureza ou à realidade visual à qual pertencem, parecer-se com alguma coisa já é um modo de dizer o que se pretende com maior ou menor precisão sobre o assunto. Se olharmos para as manifestações artísticas da humanidade, vemos que os primeiros seres humanos criavam imagens com sentido mágico, simbólico, espiritual e não documental ou expressivo, portanto, não havia qualquer obrigação de fazer com que as imagens se parecessem com o que viam. Estas imagens podiam ou não se parecer com as coisas do mundo, a proximidade anatômica era mais uma decorrência da observação e do conhecimento sobre os animais com os quais convivia e dos quais dependia para viver do que resultado de estudos sistemáticos sobre eles.


Entretanto, a representação da figura humana não era uma prioridade nos primeiros momentos, considerando que as figuras criadas eram vinculadas à rituais de magia propiciatória, provavelmente destinadas a facilitar as caçadas e não a conhecer o ser humano.
Embora algumas representações humanas surjam na pré-história, elas não fazem referencias precisas à anatomia, são apenas figuras estilizadas antropomorficamente, como humanoides, mas pouco parecidas com os seres humanos, alguns exemplos podem ser destacados como as Vênus pré-históricas de diferentes locais e períodos:


Venus de Willendorf, Austria


Venus de Hohle Fels, Alemanha





Do mesmo modo que podemos destacar outras imagens do Brasil, como as da Serra da Capivara, no Piauí.


Serra da Capivara, Piauí, Brasil






Entretanto, é na Antiguidade que começam a surgir as manifestações mais próximas à anatomia humana. Nesta época, as manifestações visuais constatam a existência de estrutura óssea, muscular e até mesmo fisionômica, a aparência do modelo influi na construção da imagem.
Seguindo o percurso da Arte Ocidental, vamos perceber que as representações humanas vão, aos poucos se tornando mais humanas e menos estilizadas desde as primeiras manifestações da humanidade como:



Os Orantes sumerianos, que por acaso, não são um bom exemplo de anatomia humana.



Além dos Acadianos



Dos Babilônicos





Assírios




E Persas






No contexto dos Mara Egeu, vamos encontrar as imagens de Cíclades e Creta.




Cíclades







Creta









Embora os Egípcios, por conta do desenvolvimento dos processos de mumificação, tivessem um bom conhecimento anatômico e mesmo da fisiologia, estes conhecimentos não são demonstrados nas representações artísticas, suas imagens eram definidas por convenção e não pela aparência das pessoas.













Na Grécia Arcaica já há pretensões de mostrar uma aproximação maior com o corpo humano, embora a estrutura anatômica seja, praticamente, intuitiva.






















No Período Clássico grego, há maiores preocupações com a anatomia, embora canônica, idealizada e não necessariamente naturalista.









Para os Romanos reproduzir com fidelidade o visível era uma questão de honra.

















Imperador Augustus e Cupido



































Os Retratos Romanos revelam maior aproximação fisionômica

























Arte Paleo-Cristã, a Idade Média não foi um bom período para os estudos de anatomia.








Naquele tempo, as imagens eram bem rudimentares e se preocupavam em narrar uma história ou acontecimento religioso e não em reproduzir o visível.


















Um exemplo é a Arte Bizantina





















Mas é no Renascimento Italiano que a anatomia deixa de ser algo intuitivo e passa a ser estudada e ser desenvolvida como um elemento de significação tão importante para a qualificação do artista a ponto de tornar-se um campo de estudo científico.
A produção artística deste período recebe um reforço extraordinário da observação do mundo e sua transformação em imagem por meio da perspectiva na superfície plana e da escultura no contexto ambiental tridimensional. Um bom exemplo é o escultor Verrochio que mostra uma anatomia humana perfeita.




Renascimento, Davi de Verrochio




















Os primeiros anatomistas deste período foram Mondino de Luzzi, Leonardo Da Vinci, Walter Hermann Ryff, Andreas Vesalius.
Mondino de Luzzi
Mondino de Luzzi, or Mundinus de Liuzzi or de Lucci, (1270 – 1326), anatomista, escritor e professor de cirúrgia que viveu em Bolonha e estimulou a prática da dissecação pública.
Mondino de Luzzi, “Lesson in Anatomy”, originally published in Anatomia corporis humani, 1493.







Mondino dei Liuzzi (1270-1326) assiste ad una dissezione dalla cattedra; incisione tratta da Fasciculus medicinae (1493)









Entretanto, é com Leonardo Da Vinci, (1452-1519), que vamos reconhecer um dos primeiros estudiosos da anatomia humana. Ele não se preocupou apenas com a anatomia, mas também em compreender o funcionamento do corpo humano: a fisiologia.







Sua discussão sobre proporções, a partir do desenho chamado de “Homem Vitruviano”, de 1490, traz o conceito da Divina Proporção para o Renascimento. Talvez tenha sido este um dos pontos de contado de Da Vinci com o interesse pela anatomia.


























Mais tarde, o estudioso Alemão Walter Hermann Ryff, publica em 1542:





"Die Kleyner Chirurgei,“











Com Andrea Vesalius, (1514-1564), os estudos de anatomia vão encontrar seu maior aliado e difusor. Seu livro: De Humani Corporis Fabrica, publicado em 1543 é um atlas de anatomia humana, didático e eficiente para este campo de conhecimento.







Pode-se dizer que Andreas Vesalius foi criador do primeiro livro para estudos médicos.





O tempo passou e Vesalius deixou seguidores um deles, nosso contemporâneo é Gunther Von Hagens. Professor de anatomia, alemão, nascido aos 10 de janeiro de 1945, em Liebchen, é o criador da técnica de Plastinação que, aplicada em cadáveres, é capaz de para preservá-los para o estudo de anatomia. Todavia, ao contrário de manter o corpo fixo, imóvel e disforme, explora a ideia de movimento e, com isso, sugere dinamismo e ação, o que, ironicamente, dá vida ao corpo inanimado.







Suas peças são uma homenagem ao ser humano, à vida e, contraditoriamente, à morte:








Enfim o corpo humano nos atrai mas, nem sempre nos agrada...